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De Podence a Oruro, à distância de um Carnaval

© Fellipe Abreu | Folhapress

 

Podence, uma aldeia no concelho de Macedo de Cavaleiros, em pleno Nordeste transmontano e Oruro, uma cidade de tradições mineiras localizada no altiplano boliviano, na Cordilheira dos Andes. Separadas por milhares de quilómetros, uma na América do Sul outra na Europa, o que têm afinal em comum que as une?

Um Carnaval sumptuoso, cheio de cor e tradição, que todos os anos atrai milhares de visitantes curiosos em conhecer melhor estas manifestações culturais. Ambos classificados como Património Imaterial da UNESCO, perpetuam ao longo dos séculos uma história que é importante continuar a contar às gerações vindouras e que faz parte do ADN de cada país. E é sobre isso que hoje falamos neste artigo da Landescape!

A origem da celebração pagã de Podence

Esta tradição remonta ao tempo do Romanos, embora alguns autores reportem as festividades ao período do Neolítico. Certo é que os rituais estavam ligados  à entrada na Primavera e à necessidade das sociedades agrícolas terem boas colheitas. A tradição esteve em risco de se perder nos anos 60, por causa da guerra colonial e da imigração, que afastaram os homens desta aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros.

 

© Pedro Sarmento Costa | Lusa

 

A inversão dá-se em meados dos anos 80 com um grupo de pessoas orgulhosas da sua terra que decidem reanimar esta tradição constituindo primeiro a Associação de Melhoramento de Festas e Feiras e, mais tarde, a Associação Caretos de Podence. A pouco e pouco, a fama destas festas foi aumentando o que animou outros a juntarem-se, nomeadamente os emigrantes que começaram a regressar no Inverno a Portugal para participar do Carnaval. Hoje, visitantes de todo o mundo deslocam-se à aldeia, de forma entusiasta para assistir a esta celebração pagã.

O Entrudo de Podence não é um carnaval qualquer. Em primeiro lugar, é o carnaval chocalheiro. Independentemente do reconhecimento internacional no Nordeste transmontano, todos conhecem os Caretos que percorrem no domingo e terça-feira de carnaval as ruas da aldeia. São endiabrados com as raparigas, sobretudo as solteiras, com máscaras bizarras de madeira, zinco ou cabedal e com mantas de lã cobertas com franjas muito coloridas. Invadem as ruas para as expurgar dos males e purificar, tudo numa grande e ruidosa chinfrineira provocada pelos chocalhos que estão presos nas ancas.

Um fato novo pode custar até 800€, mas os pedidos não param de chegar e vêm sobretudo de filhos da terra, emigrados no estrangeiro, que retornam a Podence para passar o testemunho às gerações mais novas, perpetuando assim a tradição e o modo de vida sustentável e ecológico que lhe está intrínseco. Talham-se as máscaras em placas de zinco ou de couro que depois são pintadas com um ar meio diabólico. Talham-se as mantas, e através de um tear produzem-se as franjas que depois são cosidas à mão. Só um fato demora horas a fio a estar pronto.

@ Pedro Sarmento Costa | Lusa

 

A homenagem à Virgem de Socavón

Oruro, considerada a capital folclórica da Bolívia, recebe anualmente aquele que é o mais icónico e famoso dos carnavais do país, e também um dos mais importantes da América do Sul, lado a lado com o Brasil e Colômbia. Nele participam mais de 48 conjuntos folclóricos, distribuídos por 18 especialidades de danças que reúnem as diversas regiões do país e onde se incluem a Morenada, a Diablada, a Caporales, a Llamerada, os Waca-Waca, entre tantos outros. A peregrinação dos cerca de 30.000 bailarinos faz-se ao longo de 4 quilómetros até ao Santuário da Virgem de Socavón no sábado de carnaval sendo a dança mais importante a Diablada, que representa a luta entre o bem e o mal.

O diabo é o mito nascido entre os mineiros, responsável por lhes trazer boa ou má sorte, que por sua vez contrasta com a Virgem de Socavón, padroeira da cidade, e que se crê ter aparecido à entrada das mais ricas minas de prata de Oruro no século XVII. A cerimónia segue os costumes andinos tradicionais, baseados na invocação da Pacha Mama e do Tio Supay, sincretizados, respectivamente, nas figuras da Virgem Maria e do Demónio, mantendo viva a herança mineira da cidade.

Alguns consideram este festival o carnaval mais antigo da história, apesar da tradição carnavalesca ter começado na Europa, antes da colonização da América. Porém, o simbolismo e as tradições deste Carnaval em específico vêm de uma cultura muito mais antiga, que costumava celebrar uma festa religiosa naquela mesma região, antigamente chamada de Uro Uro. Quando os espanhóis aqui chegaram, para trazer o catolicismo, fizeram analogias entre as suas crenças e as crenças locais, e assim nasceu o famoso Carnaval de Oruro.

É hoje uma das principais atracções turísticas do país, levando anualmente milhares de bolivianos à região e também cada vez mais estrangeiros, desde a sua classificação como Património Imaterial da UNESCO a 18 de Maio de 2001.

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