Mapa Meu - Travel Experiences Lda
+351 917 434 117

Do Lajido de Santa Lúzia ao Pico de Portugal

A exótica junção entre o mar e a montanha faz do Pico um destino de eleição para os amantes da natureza. Nascida da lava e esculpida pelos elementos, a ilha de paisagem inóspita é também um monumento ao engenho e imaginação do homem, que aqui criou sustento quase a partir do nada.

Para onde se olhe só se vê pedras negras, empilhadas à mão, umas sobre as outras, ao longo dos séculos, num labiríntico rendilhado de muros que é uma das paisagens mais conhecidas desta ilha. Aqui são cultivada as uvas das castas Verdelho, Arinto e Terrantez com as quais é feito o famoso vinho do Pico, um néctar que chegou a ser servido à mesa dos czars russos e cuja primeira referencia data de 1591, numa crónica de Gaspar Frutuoso. Conhecidas como currais, estas pitorescas vinhas são um monumento ao engenho do homem e à sua capacidade de adaptação ao ambiente adverso, reconhecido pela UNESCO, em 2004, com a classificação de Património Mundial.

O Lajido de Santa Lúzia

O Lajido da Criação Velha e o Lajido de Santa Luzia são dois dos locais obrigatórios para quem quiser conhecer melhor esta tradição. Em Santa Luzia existe um centro de interpretação (com prova de vinhos), armazém de pipas e um alambique comunitário, onde ainda é feita, segundo os métodos tradicionais, a também famosa aguardente de figo. À volta, abundam as adegas e os armazéns, bem como diversos currais e curraletas, nome dado às parcelas minúsculas onde as vinhas são cultivadas no chão de lava preta. Esta cultura terá sido introduzida na ilha pelos primeiros povoadores, ainda no século XV, mas só mais tarde, ao verem-se impossibilitados de cultivar cereais sobre o chão de pedra, os monges franciscanos e carmelitas improvisaram esta engenhosa solução, de plantar as videiras nas fendas das rochas. Foi ainda necessário proteger as plantas do vento forte e da maresia salgada vinda do mar, surgindo assim os muros, que por serem feitos de basalto, funcionavam também como estufa, acumulando calor durante o dia e libertando-o à noite. Um processo que acentuava a doçura das vinhas e garantia a qualidade do vinho licoroso. Com o passar do tempo, foi criada toda uma estrutura de transporte, armazenamento e escoamento do vinho, que ainda hoje se mantém praticamente intacta: rolas-pipas, ancoradouros ou rilheiras, assim são chamados os caminhos escavados na rocha, ao longo da costa, pelos rodados dos carros de bois.

O vinho do Pico, um licoroso branco seco, feito a partir da casta Verdelho, atingiu o seu auge entre o século XVIII e XIX, quando era o favorito de muitas casas nobres do norte da Europa e dos czars da Rússia. Depois de, no século XIX, a filoxera ter arruinado o negócio, lançando metade da população da ilha para a emigração, a cultura do vinho ganhou nova vida, a partir dos anos 1950, com a criação da Cooperativa Vitivinícola do Pico. O famoso Lajido Superior assume-se como a jóia da coroa desta casa que, desde os anos 90, produz também vinhos de mesa com cada vez maior procura. Nos últimos anos, a cultura está de novo em crescimento, como se depreende pela quantidade de vinhas a serem reconquistadas à natureza, mas especialmente pelos muitos produtores privados.

A subida ao Pico

Cá fora, entretanto, o sol brilha, revelando a montanha em todo o seu esplendor. “Já viu como o Pico está bonito hoje?” É assim, com esta interrogação em forma de cumprimento, que muitas vezes são dados os bons dias no Pico. A montanha mais alta de Portugal (com 2.351 metros) é o orgulho dos habitantes da ilha e, sempre que o sol brilha e as nuvens se afastam, todos fazem questão de lembrar – uns aos outros e especialmente aos forasteiros –, o quanto o Pico é realmente bonito.

O ponto de partida para a subida ao Pico é a Casa da Montanha, onde, para além de serem fornecidas informações, é feito o registo de controlo das subidas à montanha. Fica a cerca de 1 200 metros de altitude e a partir daqui só dá para seguir a pé, percorrendo um trilho de 3 800 metros até ao topo, de onde se pode observar todas as ilhas do grupo central (Faial, São Jorge, Terceira e Graciosa). O percurso pode ser feito de dia ou de noite, neste caso com direito a ver o nascer do Sol – um momento único, que recompensa o esforço de subir a montanha mais alta de Portugal. A subida começa por volta da uma da manhã. Lentamente e com algumas paragens pelo caminho, para beber água ou simplesmente apreciar a Lua e a imensidão de estrelas, chega-se à cratera pouco antes das seis, quando a claridade já surge no horizonte. Falta depois subir ao “Piquinho”, onde algumas pedras quentes e um ou outro jato de fumo lembram as origens vulcânicas da ilha, impondo o devido respeito à montanha. Já no topo, a saborear um café quente acabado de fazer, vê-se finalmente o Sol a surgir no horizonte. Apesar de não ser muito técnica, a subida é considerada de grau de dificuldade “médio a elevado”, pelo que é necessário tomar alguns cuidados. Trazer agasalhos com roupa por camadas e uma muda seca, para o caso de chover, são recomendações a ter em linha de conta, assim como levar sempre água e alguma comida.

A paisagem natural da segunda maior ilha dos Açores (mas com apenas com 16 mil habitantes, quase todos concentrados no litoral) não se limita, no entanto, à montanha, como comprovam os Mistérios, nome dado aos campos de lava resultantes das quatro erupções históricas, ocorridas depois da povoação da ilha. Como os habitantes de então não tinham qualquer justificação para o fenómeno, foram encarados como verdadeiros mistérios da natureza. São eles o da Prainha (ocorrida entre 1562 e 1564), de Santa Luzia (1718), São João (1718) e Silveira (1720), que deram uma nova forma à ilha e cujos contornos são visíveis e identificáveis a partir dos vários miradouros existentes ou através dos trilhos pedestres que os percorrem. A intensa atividade vulcânica da ilha também deixou marcas no subsolo do Pico, onde existem cerca de 130 grutas vulcânicas, quase tantas como as existentes em todas as restantes ilhas dos Açores. A mais conhecida é a Gruta das Torres que, com mais de 5 mil metros de extensão, é o maior tubo lávico existente em território nacional e um dos maiores do mundo. Aberto em 2005, o Centro da Gruta das Torres permite uma visita ao seu interior, numa extensão de 450 metros, sempre acompanhada de um guia. Pormenor importante: de modo a preservar os seus complexos ecossistemas, não dispõe de iluminação artificial, sendo fornecida aos visitantes uma lanterna, que a dado momento o guia pede para apagar, tornando a experiência ainda mais intensa e inesquecível.

Outras paragens obrigatórias

São diversos os locais no Pico que mantêm viva a história da faina baleeira, como é o caso da vila das Lages, porventura a localidade onde se concentra o maior património baleeiro dos Açores. Uma memória do passado, que é também presente e futuro. Afinal, foi aqui que teve início uma das atividades que mais visitantes atrai ao arquipélago: a observação de cetáceos, com a empresa Espaço Talassa, fundada pelo francês Serge Viallelle no início dos anos 90. Desde então, em especial durante a primavera e o verão, a freguesia tornou-se numa das mais cosmopolitas da ilha, animada por visitantes oriundos de todo o mundo. Bem no centro da vila, o Museu dos Baleeiros retrata, com utensílios de época, toda a dureza da faina – e que um documentário, realizado na década de 70, ajuda a complementar. Também nas Lajes, a antiga fábrica da baleia SIBIL, que no início da década de 1950 se dedicava à produção de óleos e farinhas, está agora transformada no Centro de Artes e de Ciências do Mar, com zona museológica dedicada à indústria baleeira e uma exposição permanente, em formato multimédia, sobre a biologia dos grandes cetáceos. Para que a Rota da Faina Baleeira fique completa, visite-se a pequena localidade da Calheta do Nesquim, onde em meados do século XIX, teve início a caça da baleia na ilha, implementada pelo Capitão Anselmo da Silveira. A importância desta atividade na história da pequena localidade vê-se na Igreja de São Sebastião, com os seus trincos em osso de baleia, ou no pequeno núcleo museológico da Casa dos Botes, onde estão expostos alguns exemplares. E embora já não sirvam para perseguir cachalotes, os velhos botes ainda continuam a navegar, agora em animadas regatas, que durante o verão opõem as freguesias do Pico e das restantes ilhas do grupo central.

Artigo escrito pelo líder de viagens Miguel Judas para a Visão

Fotografias da autoria do líder de viagens Luís Godinho