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Footsteps Through Africa, a ONG por trás do líder Pedro Quirino

O Pedro Quirino, líder de viagens especializado em safaris, é o rosto por trás de alguns dos destinos de África abertos ao público na Landescape, como é o caso do triângulo Botswana, Zâmbia e Zimbabwe, e também do Uganda. Actualmente a residir na África do Sul, para onde se mudou há sensivelmente quatro anos, gere, juntamente com o fundador Jo Cooper, a organização não governamental Footsteps Through Africa que actua junto de diferentes comunidades locais, sobretudos com intervenção nos sectores da educação, saúde e desenvolvimento de projectos.

Fomos conversar com ele sobre o papel activo que tem nesta organização, as condições de trabalho e dificuldades que encontra no terreno para a aplicação dos projectos de voluntariado e as motivações que o levaram a mudar-se para África e a abraçar esta iniciativa.

1. A Footsteps Through Africa enquanto ONG começou a operar em 2015. Como se materializou este projecto? E qual a tua função na estrutura da associação?
Pedro Quirino: A ONG Footsteps Through Africa nasceu no Malawi quando o fundador Jo Cooper liderava viagens naquele país e fez amizade com um habitante local de uma aldeia junto ao lago Malawi onde costumava parar para pernoitar. Esse habitante local era um adolescente paraplégico abandonado pela família, que toda a vida tinha vivido arrastando-se pelas ruas poeirentas da aldeia e subsistindo da caridade dos amigos e vizinhos.

A realidade é que seriam precisos anos para aquela aldeia inteira no Malawi, num esforço colectivo, juntasse dinheiro para comprar uma simples cadeira de rodas que teria de ser importada e que certamente chegaria a preços astronómicos ao destino. Apercebendo-se da realidade, Jo comprou uma cadeira de rodas em 2ª mão na África do Sul e levou-a numa das suas viagens até ao Malawi, onde transformou a vida de uma pessoa.

Foi assim que nasceu este projecto, com o objectivo de mudar a vida de outras pessoas em África em cada uma das viagens que realizamos.

2. Neste momento, trabalham exclusivamente com a Aldeia de Rubuguri, no Uganda, ou a vossa acção estende-se a outros territórios africanos?
Pedro Quirino: Por escassez de financiamento, tivemos que focar os nossos recursos num único local de forma a conseguir construir um projecto consistente que criasse maior impacto local e não aleatoriamente pelo continente fora. Portanto, a ideia nasceu no Malawi mas a ONG foi criada no Uganda, na remota aldeia de Rubuguri na periferia da Floresta Impenetrável de Bwindi, onde levo os meus grupos de viajantes.

Gostaríamos de estender a acção da Footsteps Through Africa a Moçambique mas tal só será possível ao conseguir aumentar a base de recursos financeiros que permita construir um projecto consistente e a longo prazo. Pior que não fazer nada é só mesmo iniciar um projecto ou um apoio e depois cortar esse apoio a meio, como já aconteceu e, por exemplo, dizer à criança que apoiamos que não conseguimos mais pagar a sua escola. É uma enorme frustração. Cada projecto que iniciamos tem de ter a garantia que é iniciado e terminado.

3. Publicaste recentemente no blogue da Landescape um artigo sobre Rubuguri, onde referes as duras condições de vida dos seus habitantes e a convivência diária e quase fortuita com o vírus da SIDA. Imagino, porém, que existam muitas outras Rubuguris no continente, o que vos fez escolher actuar aqui?
Pedro Quirino: De facto, África é feita de muitas Rubuguris. É ainda o único continente predominantemente rural, uma característica que a maior parte das pessoas que visitam África acaba por não conhecer genuinamente. Nos safaris tradicionais é comum visitarem-se as “aldeias tribais” pitorescas com exposições de artesanato ao longo da estrada que são experiências muito giras mas que não reflectem a realidade do povo, pois esses habitantes já vivem essencialmente do comércio que lhes proporciona um aumento dos padrões de vida, e ainda bem que assim é! Em Rubuguri, todos os problemas estão bem à vista: a falta de saneamento, falta de electricidade, economia de subsistência, doenças, sub-nutrição e várias outras carências de todos os tipos. Apesar de tudo isto, toda a aldeia vive genuinamente feliz com o pouco que tem, pois não conhece outra realidade que ambicione. A felicidade do povo desta aldeia mostra bem porque chamam ao Uganda “a pérola de África”. Rubuguri tornou-se familiar, tornou-se especial e, inevitavelmente, parte da Footsteps Through Africa.

A SIDA, tal como muitas outras doenças como a Malária ou mesmo o Ébola, é uma realidade bem presente aqui nesta zona de África há muitos anos. Só nos anos 80 é que esta doença chegou ao mundo ocidental e começou a ser investigada mas julga-se que por aqui sempre andou por ser talvez o único lugar do planeta onde o Homem vive muito próximo com os seus parentes ancestrais, os grande Primatas como o Chimpanzé ou o Gorila.  Aliás, de momento os 2 projectos para a qual estávamos a canalizar mais esforços estão relacionados com esta problemática e esperamos retomá-los após a pandemia. Um deles, “Women of Hope” consiste no apoio a algumas mulheres viúvas que perderam os maridos devido à SIDA e que, por esta razão, são discriminadas pela comunidade que não lhes oferece trabalho nem as deixa participar na vida comunitária da aldeia. O que nos propusemos fazer foi incentivá-las a produzir algo daquilo que melhor soubessem fazer de artesanato, tal como esculturas em madeira, tapeçaria, costura, indumentária, bijuteria, etc. A Footsteps compromete-se a comprar todos os produtos que elas produzam para depois vender nos poucos lodges na zona pelos mesmos preços. Além disso, as mulheres da “Women of Hope” mostraram surpreendente interesse em aprender a ler e, por iniciativa de uma das voluntárias, iniciaram as aulas aos domingos à tarde no jardim da escola primária. Na segunda semana, uma das mulheres perguntou se umas amigas também poderiam assistir às aulas. Obviamente que consentimos. Na terceira semana, o relvado da escola estava cheio de dezenas de mulheres pela encosta acima munidas de pedaços de papel com canetas ou algo que escrevesse e preparadas para ter as primeiras aulas. Foi comovente!

O outro projecto consistiu na criação de uma escola especial para crianças da etnia Batwa (das tribos pigmeus), uma vez que não são aceites nas escolas públicas e nem mesmo nalgumas privadas por terem um enorme atraso civilizacional comparativamente à população local (imagine-se!) e por ser uma comunidade com uma elevadíssima taxa de incidência de SIDA. Estas tribos de Pigmeus, que sempre foram caçadores-recolectores, foram obrigadas a deixar a floresta por motivos de Conservação da Floresta de Bwindi e salvação da espécie ameaçada dos Gorilas da Montanha, passando a residir nas aldeias na periferia da Floresta, onde nunca tiveram qualquer apoio para a re-alocação, nem nunca se souberam adaptar ao novo estilo de vida. Rubuguri é, de facto, uma problemática muito complexa.

4. Qual a tua relação com a comunidade local? E com que frequência te costumas deslocar a Rubuguri?
Pedro Quirino: As minhas estadias em Rubuguri acontecem quando lá pernoito nas viagens ao Uganda ou na altura em que faço os safaris naquela parte de África. É a minha base da operação, portanto, acabo por passar várias semanas por ano em Rubuguri e aproveito para iniciar alguns projectos e criar mais dinâmica nos já existentes.

Numa aldeia onde todos se conhecem, ser o “muzungo” que promove estas acções não me deixa passar despercebido onde quer que vá, especialmente com a criançada que me persegue mesmo nas minhas corridas matinais. Não lhes percebo uma palavra mas creio que estão sempre a pedir ou à espera que lhes conceda mais uma sessão de cinema lá na biblioteca da aldeia criada pela Footsteps. Aos domingos à tarde, decidi montar um projector e passar filmes animados para atrair mais crianças à biblioteca, pois percebi que elas não entravam julgando que era só para turistas ou que era pago. Na primeira sessão tive de convencer as professoras da primária a levar as crianças. Nas sessões seguintes tinha crianças penduradas nas janelas, às cavalitas, nas prateleiras dos livros, aos magotes a degladiarem-se lá fora para entrar…caótico! Como eles não sabem os dias da semana, nem sequer as horas do dia, não perceberam que as sessões aconteciam aos domingos à tarde. Assim limitavam-se a andar atrás de mim, não fosse eu entrar na biblioteca e passar um filme.

5. Na descrição da Footsteps Through Africa diz algo muito interessante: “What we avoid is presuming the needs of people living in these communities. Rather, we learn from them”. Como é que na prática isto se processa?
Pedro Quirino: Como mencionei anteriormente, as pessoas de Rubuguri vivem felizes com aquilo que têm pois não conhecem mais. A maior parte delas nunca foi à cidade mais próxima que fica a 65kms de distância, nunca viram uma mercearia, nunca viram um banco, nunca viram um polícia! Nós, ocidentais do mundo desenvolvido, é que presumimos que eles vivem miseravelmente por não terem aquilo que nós consideramos imprescindível, desde televisões a sapatos.Mas na realidade, talvez eles sejam mais felizes do que nós por terem de facto tudo o que precisam e não aquilo que nos dizem que queremos. Assim, torna-se muito difícil ajudar sem ultrapassar aquela linha ténue onde já estamos a oferecer algo mais do que são os padrões normais e a quebrar o equilíbrio daquela pessoa naquela comunidade.

Desta forma tentamos apoiar e desenvolver projectos que sejam o mais sustentáveis possível, seguindo a velha máxima de “Não lhe dês o peixe, ensina-o a pescar.” Uma das primeiras coisas que tento sensibilizar os viajantes é para não darem esmolas ou doces às crianças que o solicitam, muitas vezes, ao longo da estrada, aos viajantes que por ali passam. Primeiro porque isto torna-as vulneráveis e dependentes de caridade para o resto da vida e segundo devido ao grande problema de falta de cuidados básicos dentários. Ao invés, apoiamos todos aqueles que queiram aprender uma profissão ou uma mestria com que possam futuramente ganhar o seu sustento. Oferecemos também uma porca a cada família carenciada, na condição de não matarem a porca para consumo e apenas poderem utilizar os leitões para consumo ou vender. Comprámos terra e fizemos plantações de várias espécies de frutos e vegetais para diversificar o regime alimentar de todos aqueles que quiserem participar na plantação e manutenção da quinta: podem tirar o que quiserem apenas para consumo, desde que plantem de volta. Estabelecemos portanto talhões de terra onde só podem cultivar determinadas espécies para não acabar na comum monocultura local. Tentamos ensinar e implementar o conceito de sustentabilidade onde quer que intervimos mas, às vezes, não é fácil…em troca aprendemos uma grande lição de humildade e a relativizar aquilo que achamos que temos falta.

6. Sendo uma ONG presumo que dependam, quase de forma exclusiva, de donativos. Como é feita essa recolha anual de fundos?
Pedro Quirino: Sim, a organização depende de donativos mas, acima de tudo, de voluntariado que acaba também por contribuir financeiramente para a continuidade dos projectos. Cobramos um valor semanal por alojamento em pensão completa num lodge muito básico aqui em Rubuguri para assegurar condições mínimas de conforto e salubridade aos voluntários e, também, obter financiamento para a criação e manutenção dos vários projectos. Os donativos podem ser feitos directamente através do website mas gostamos sempre que nos contactem porque dessa forma podemos explicar quais os projectos que estão a ser desenvolvidos ou prestes a iniciar para que quem contribui possa conhecer melhor a nossa missão e saber onde serão aplicados os fundos. Porém, sem dúvida, que preferimos a vinda de voluntários aos donativos.

7. Podes explicar como é feito o processo de admissão para aqueles que estejam interessados em integrar o projecto de voluntariado?
Pedro Quirino: Além de termos desenvolvidos todos estes projectos que mencionei, ajudámos na construção da escola primária e da clínica local, onde tentamos contribuir com voluntários nestas áreas para assegurar um acesso gratuito da população local aos serviços de ensino e saúde. Procuramos, portanto, voluntários com experiência nas áreas de ensino e saúde mas são igualmente bem vindos todos aqueles que queiram ajudar a desenvolver todos os outros projectos de apoio à comunidade. Trabalho não falta!

8. Como é que os viajantes da Landescape podem apoiar este projecto, nomeadamente através da nova viagem ao Uganda?
Pedro Quirino: Simplesmente inscrevendo-se na viagem da Landescape ao Uganda, porque ao fazê-lo já estão a contribuir. 5% das receitas da viagem seguem directamente para a ONG Footsteps Through Africa. Além disso, ao integrar a viagem vão ter a oportunidade de visitar Rubuguri e de participar nalgumas dessas acções e projectos da organização.

9. Qual foi o maior ensinamento que estas comunidades locais te deram?
Pedro Quirino: Uma enorme relativização daquilo que consideramos serem problemas na nossa vida. Depois desta experiência  pomos tudo em perspectiva e recebemos uma enorme lição de humildade. Por vezes, não é fácil lidar com tantas coisas pesadas psicologicamente ao mesmo tempo e tão próximas. Às vezes só apetece baixar os braços e voltar as costas a tudo aquilo e questiono-me por vezes “Para que estou a fazer isto?”.

Passado um mês a viver nestas condições e nesta realidade, esqueço-me que também existem duches de água quente e pastéis de nata. Porém basta querer e volto a ter tudo isso outra vez. O poder de escolha e o acesso a tudo o que o mundo desenvolvido concebeu até hoje é um privilégio que assiste a uma pequena parte da população a nível mundial, que nem o valoriza. Para realmente perceber esta condição é preciso viver essas experiências de forma autêntica e não se consegue somente enquanto meros espectadores de um mundo diferente quando viajamos.

 

10. O que te fez mudar de malas e bagagens para o continente africano?
Pedro Quirino: Na altura senti que estava a precisar de mudar de vida e de abraçar novos desafios. Esta oportunidade surgiu no timing perfeito e nem hesitei. Sempre sonhei em, um dia, viver em África mas julgava que para isso acontecer teria de ganhar imenso dinheiro e um dia conseguir reformar-me e ir viver para uma quinta no meio da savana africana rodeado de animais. Acontece que, às vezes, a vida nos apresenta atalhos e é preciso ter a coragem de os aceitar. Assim o fiz!

11. Por fim, imaginas-te a sair de África?
Pedro Quirino: Sim, talvez não definitivamente pois gosto de ter sempre um pé cá e outro lá. Mas uma coisa é certa e, pode parecer cliché mas… é África que não sai de nós.