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Kibera, mergulho na maior favela de África com Rui Barbosa Batista

Hoje partilhamos convosco uma das crónicas de viagem do autor português, Rui Barbosa Batista, integrada no livro “Born Free – O Mundo é uma Aventura”. Um testemunho narrado na primeira pessoa sobre a experiência de viajar por Kibera, a maior favela de África e uma das maiores do mundo, localizada bem no coração de Nairobi, a capital do Quénia.

Foi precisamente aqui, nesta imensa lixeira a céu aberto que alberga perto de 2,5 milhões de pessoas com poucas ou nenhumas oportunidades, que a líder Marta Baeta desenvolveu a sua Organização Não Governamental From Kibera With Love, um projecto apoiado pela Landescape e para a qual também tu, enquanto viajante, podes contribuir canalizando 5% do montante da tua viagem.

 

QUÉNIA

Kibera, mergulho na maior favela de África

Não entendo o que está a acontecer. Vejo alarido, confusão e percebo um choro, relativo e compulsivo, que lhes é imediato. Paula fica aos soluços, sem um ombro que ampare o seu desabamento emocional. Dou-lhe o meu.

Na preocupação de a isolar desta crua e dura realidade, só posteriormente saberei que os meus piores receios se confirmaram. A desgraça humana teve novo episódio trágico. No meio da imundície, é encontrado um corpo, já cadáver, de recém-nascido. Abandonado no caótico desespero de Kibera.

Esta história não tem eufemismos e poderia muito bem principiar pela changaa, uma bebida com mais de 50% de álcool e vendida cá a menos de 10 cêntimos. Alguns goles bastam para potenciar um profundo estado de embriaguez. Com mais de metade dos habitantes de Kibera desempregados, há quem comece a beber manhã cedo. Depois surge, com desumana naturalidade, a violência, o crime e as violações, infelizmente diárias…As drogas – as baratas, a cheirar a cola – também invadiram a maior favela de África, degradando ainda mais o cenário.

Como se isso não bastasse, boa parte dos homens não usa preservativos. Os números dizem igualmente que, a cada dia, mais de metade das raparigas entre os 16 e os 25 anos está grávida. Poucas gravidezes são desejadas. Seria o caso…

Paula depara-se com outra situação que lhe toca o íntimo. Uma cadela em bastante má condição, impotente para fugir a um destino idêntico, está inerte e demasiado débil para ajudar as várias criaturas minúsculas que a rodeiam nesta imensa lixeira a céu aberto.

A minha amiga não será a única a implorar que esta exploração de Kibera termine rapidamente. De preferência, já aqui. No seu caso, que seja MESMO apagada do mapa da sua memória. É preciso algum estofo para deambular horas e horas pelo caos. Em todos os sentidos. Estar neste inarrável sítio é bem diferente de o ver na televisão, de o ler numa revista. Experiência imersiva, que não podemos simplesmente terminar no instante em que o desejamos.

Este bairro alberga 2,5 milhões de pessoas, mais de metade da população de Nairobi, Quénia. Uma das maiores favelas do planeta, imortalizada, entre outros, no filme Fiel Jardineiro. E certamente uma das mais degradadas: pobreza extrema, precárias construções temporárias, quase total ausência de saneamento básico – uma latrina, um mero buraco no chão, é partilhada por umas 50 apinhadas barracas e, quando cheia, são contratados jovens para transferir os dejetos para o…rio -, má saúde ambiental, SIDA…

Choveu e, como é hábito, são demasiados os trilhos intransitáveis. Há alturas em que ter a atenção no chão é mais importante do que absorver todo o imutável caos que nos rodeia. Qualquer humano sente desconforto neste solo, que grita socorro através de todos os seus poros. Fechar os olhos não nos tira deste cenário, que se incrusta bem fundo na pele. Impossível estar em Kibera, sem a ter, literalmente, dentro de nós.

Aqui nada é planeado, antes improvisado. Onde imaginamos um barraco, afinal são dois ou três. Os caminhos são, normalmente, o espaço vago deixado entre umas mal-amanhadas habitações e outras iguais no improviso. A água escorre por todos os veios, e não há chão sólido no qual confiar os nossos passos.

Os sobe-e-desce são contínuos. No sopé, há um regato que corre. Ou corria. Na verdade, mal se vê a água. Foi engolida por um amontoado de lixo no qual vagueiam três porcos. Dois activos, a banquetear-se no degredo, o outro, a dormitar, possivelmente já satisfeito. Não arriscaria no seu presunto…

Kibera é, em si, um Mundo onde cabe todo o tipo de profissões. Então barbeiros e cabeleireiras, é impossível não termos um ao alcance do olhar. O espaço de uma cabine telefónica quase dá para montar um salão. Quem tiver um qualquer vegetal ou fruta que sobre, um banco basta para o tentar vender. Negoceia-se tudo o que é possível. Também encontro improvisadas gasolineiras. Ou seja, uma janela, gradeamento, uma bomba lá dentro e a mangueira que só sai, quando os shillings (moeda queniana) cruzam o metal protector e repousam em mãos seguras.

Já referi que, aqui, não há hospitais ou centros de saúde e que o único auxílio chega através das organizações internacionais? E que a água potável está longe de ser pura e é mesmo a principal causa de tifo e cólera?

O que, em 1912, começou por ser um assentamento de 600 soldados núbios – sudaneses – por parte do governo colonial britânico foi ganhando dimensão e perdendo controlo até à actual situação. Caótica. Cada cubículo de cinco passos por outros tantos aloja três, quatro, cinco ou mais seres humanos. Basicamente, 60% da população de Nairobi vive em apenas 6% do território. Que é pertença do Estado. Com efeito, somente um em cada dez habitantes é dono da sua própria barraca. Os restantes não têm quaisquer direitos de propriedade…

As barracas têm cerca de 3,5 x 3,5 m, construídas com paredes de barro, um telhado de zinco, em piso de terra ou concreto. Meramente 1 em cada 5 casas têm electricidade. As famílias pagam uns 7 euros por mês por um mísero quadrado, que pode albergar até 8-10 pessoas, provavelmente a dormir no chão. Existem muitas tensões em Kibera, particularmente tribais entre os Lou e os Kikuyu, ambos oriundos do oeste do país, mas igualmente entre senhorio e inquilino e aqueles com e sem trabalho.

Visitaremos uma empresa artesanal em que os ossos de todo o tipo de animais são desperdícios transformados em arte: brincos, colares, pulseiras…o exemplo de que há esperança. Entusiasmamo-nos, e a manhã é bastante proveitosa, quando os artigos são vendidos a preços de mercado europeu. Todos ficam felizes, e o Globo é mais uno, justo.

Kibera tem sido alvo crescente do interesse de turistas. Projectos controversos com motivações e resultados que estão longe de ser consensuais na aprovação dos locais. Kibera não é um parque nacional, pelo que a consciência social é fundamental para que os residentes não sejam tratados e não se sintam como ”vida selvagem à luz das objectivas. Fotografar a carência de quem não tem a capacidade de suprir as mais elementares necessidades básicas exige compreensão e cuidado: não é um exercício fácil, nem imune a dúvidas morais. No reverso da medalha, os poucos grupos organizados que cá vêm fomentam o emprego e estimulam pequenos negócios como o que visitámos, ligados a artesanato e roupas tradicionais, entre outros.

Antes de se aventurarem por Kibera ou um bairro de lata semelhante questionem-se: “O que aconteceria a um africano, se viesse tirar fotos sem fim à assinalável pobreza que ainda temos na Europa?”

Depois de visitar outra escola, almoçaremos num restaurante local que a Marta Baeta ajudou a lançar. Na prática, uma mesa de bilhar velha e inativa, ladeada por dois bancos corridos, unidos em ângulo de 90º. Longa conversa sobre Kibera, troca de experiências e perspectivas ao sabor da deliciosa massa com feijão. Unicamente. E que maravilha que estava esta simples mistura…

From Kibera With Love é o ideal social desta portuguesa que, muito nobremente, se insurgiu contra esta realidade e se agigantou na luta contra este generalizado e profundo estado de carência, a todos os níveis. Após o seu trabalho de voluntariado desenvolvido em 2012, Marta voltou ao Quénia para ficar. A ideia é garantir a estas crianças desfavorecidas o luxo de poderem estudar. A única forma de, um dia, cortarem o firme cordão umbilical à pobreza, que aqui é extrema.