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O testemunho de Mariana Alves

Vencedora do Concurso Road Trip Gap Year promovido pela Landescape

Desde logo, no momento em que soube que tinha ganho a viagem aos Balcãs da Landescape, senti um friozinho na barriga!

Por um lado, extrema felicidade. Em criança, quando me questionavam acerca do meu maior sonho, eu afirmava que era viajar pelo mundo. Afirmava com tanta certeza que ai de quem achasse uma tolice! A viagem aos Balcãs proporcionava-me percorrer cinco países, com culturas, paisagens e mil e uma experiências diferentes! Era o início do sonho tornado realidade.

Por outro lado, saber que tenho apenas 17 anos e que iria viajar “sozinha” por países ainda a curar feridas da guerra dos anos 90 deixava-me receosa e com alguma ansiedade. Mas pese embora este nervosismo, não hesitei e agarrei esta oportunidade com unhas e dentes!

E foi com este espírito que parti de Portugal no dia 29 de Junho em direção a Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina. Com a mochila às costas, os bilhetes de embarque na mão e um sorriso que ninguém conseguiria tirar abracei o meu primeiro obstáculo. O meu voo em Lisboa atrasou-se e quando cheguei a Viena para apanhar o voo para Sarajevo, o avião já tinha partido! A primeira coisa que me veio à mente foi rir e perguntar a mim mesma: “ E agora!?”. Bem, a companhia aérea ofereceu-me um voucher para pernoitar e jantar num hotel de Viena. Pelo caminho em direção ao hotel senti uma sensação de liberdade e tranquilidade enormes. Estava em Viena sozinha, mas sentia-me a pessoa mais feliz do mundo (ora não fosse o hotel quatro estrelas).

Artigo Mariana 1

No dia seguinte parti para Sarajevo e dali em diante. A viagem aos Balcãs reservava-me das melhores experiências da minha vida. Lá esperava-me o Francisco Agostinho, o líder da viagem, que diga-se de passagem é espetacular, e um grupo de mais cinco pessoas completamente diferentes de mim. Devido às diferenças de idade, eles consideravam-se o grupo da “Inatel” e eu? Eu era a novata como era de se esperar ! No entanto, ter integrado este grupo tão distinto proporcionou-me uma experiência inimaginável! O “bichinho” das viagens aumentou ainda mais, aprendi imenso com as experiências que eles já tinham vivido e pude partilhar como era ser jovem nos dias de hoje. No final, percebi que quem viaja nunca deixa o espírito jovem ser ofuscado e quando dei por ela já não eram mais o grupo de paizinhos a viajar comigo, mas sim jovens até mais desenfreados que eu.

Ao longo dos 14 dias da viagem percorri países menos óbvios na Europa. Destes destacam-se a Bósnia-Herzegovina, a Albânia e o Kosovo. Países pobres, com um sistema político deficitário mas com todas as bases necessárias para o turismo se desenvolver. Do outro lado da moeda, encontra-se a Croácia e Montenegro. Menos afetados pela guerra vêm as suas paisagens repletas de turistas e máquinas fotográficas. Ainda assim, apesar das disparidades, há algo comum a todos e que eu tanto adoro: a comida e o atendimento geral! O povo dos Balcãs é extraordinariamente atencioso e só de pensar nas iguarias que devorei, cresce-me água na boca. De uma forma global, a frase que melhor descreve todo este conjunto de países é nada mais nada menos como: “de cortar a respiração”, metafórica e literalmente.

Durante esta aventura tive também a oportunidade de conhecer de perto a cultura local de cada país e tudo o que de melhor tinham para oferecer. Cada país é uma caixinha de surpresas. Vamos abrir um bocadinho a caixa para que tu que estás a ler anseies ainda mais mergulhar nos Balcãs!

Em primeiro lugar, vou falar sobre a minha experiência na Bósnia-Herzegovina. A cidade de Mostar foi a primeira a ser visitada e que choque cultural! Visitar Mostar é viajar no tempo. Fomos até à era medieval cristã e muçulmana ao caminhar pelo centro histórico e sentimos o resfriar da guerra ao observar a Stari Most do alto da mesquita. Passamos ainda nas cascatas de Kravice e exploramos a nascente do rio Buna. A reter destes lugares: a cor da água é indescritível, os gelados são super baratos e contactar de perto com a coexistência de muçulmanos e católicos no mesmo lugar é surpreendente (pela positiva).

Alteração de plano de fundo: Dubrovnik, a pérola do Adriático. É de facto um lugar único e fascinante. Se és fã de Game of Thrones, este é o teu destino. Se não fores, tal como eu, prepara-te para ficares igualmente boquiaberto. O branco da muralha em contraste com a água azul do Adriático por si só é motivo suficiente para nos sentarmos no porto a observar esta obra de arte.

Posteriormente, saímos da praia, da cor azul clara do mar para as montanhas que refletem sob a cor azul marinha do mesmo Adriático. Chegamos a Montenegro. Poucos se atrevem a visitar esta república. Nós começamos em Kotor, classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. E não poderia ficar mais surpreendida. Desde as montanhas, à vila de pedra, à muralha encosta acima, às ilhas e à água quente do mar, Kotor é mágico. Como se já não chegasse, fizemos rapel numa corda que ligava a encosta de uma montanha à outra e nadamos no mar Adriático durante um passeio de barco. Que adrenalina!

Seguimos agora para aquele que é o meu favorito. Não se deixem influenciar, mas a Albânia é de tirar o fôlego. O que mais me marcou interiormente foi o facto de este povo ter vivido uma violenta ditadura comunista e ainda assim serem os mais amáveis com quem me cruzei. Não posso deixar passar sem falar do incrível pôr do sol no Castelo de Rozafa, da difícil visita à prisão museu da ditadura comunista em Shkõder, das ruelas coloridas em Tirana, dos bunkers plantados em todo o lado e da felicidade do povo albanês a percorrer as cidades de bicicleta. Contudo, Valbona foi a minha verdadeira paixão. Não há palavras nem fotografias suficientes capazes de descrever este paraíso. A paisagem montanhosa, a água translúcida, a vida do campo e a comida caseira! Só de pensar faz-me querer apanhar já o próximo voo. Este país marcou-me e, por isso, irei lá voltar definitivamente.

Passados quatro dias neste paraíso, partimos para o Kosovo. Na verdade, quando vi que este era um dos que estava na lista de países a visitar fiquei um pouco receosa. A imagem que nos é transmitida do Kosovo era de um país característico pelos rastos de sangue e destruição. Presenciei o contrário disto em primeira mão e não poderia estar mais errada. Os viajantes são abraçados por sorrisos acolhedores, por ruelas preenchidas de café diferentes e modernos e, mais uma vez, por cordilheiras espantosas. Vale a pena sair um bocadinho fora da rota e visitar este país, acreditem!

Os próximos dias seriam destinados às aventuras radicais e nada melhor do que voltar novamente a Montenegro. Nos dias anteriores tínhamos caminhado sob temperaturas abrasadoras. Aqui tudo mudou e nós agradecemos. Ficamos alojados numa casinha onde era possível ouvir a chuva, apreciar as montanhas e envolvermo-nos com aquele ambiente acolhedor e respirar um pouco de ar puro. No dia seguinte, esperava-nos uma descida pelo rio Tara de rafting. Visitamos ainda o Parque Nacional Durmitor e percorremos as montanhas num cenário que pensava só ser possível em filme. Montenegro é definitivamente um país para todos os tipos de viajantes.

Finalmente, dirigimo-nos para o nosso último destino: Sarajevo, a cidade onde teve início a nossa viagem. Desta vez, olhei-a com outros olhos e senti todo o peso que esta cidade e este povo ainda carrega. Deixei-me envolver por todos os indícios de guerra ainda presentes. Pelos inúmeros cemitérios dos soldados de guerra, pelas rosas de Sarajevo, pelos grafittis ousados, pelo testemunho real do povo bósnio que conhecia entre ruelas, pela Snipper Alley, pelas mesquitas e igrejas a coexistirem na mesma rua, pelo túnel da Esperança, pelos prédios cobertos de marcas de balas e pela famosa esquina onde o arquiduque Francisco Fernando foi assassinado. A cereja no topo do bolo foi a visita ao museu de Srebrenica. Coincidência ou não, nesse dia recordavam-se os 24 anos desde o genocídio de 8.373 muçulmanos. Saí do museu a respirar fundo, a conter as lágrimas e a refletir sobre a natureza humana. Comprei a flor de Srebrenica, coloquei-a ao peito e guardei Sarajevo e as suas pessoas num lugar especial do meu coração.

E assim regressei a Portugal. Com os pés já assentes em terras conhecidas, percebi o quão desafiante tinha sido esta viagem e o quanto me tinha marcado. Com 17 anos, podia dizer que os Balcãs não eram mais uma região desconhecida e misteriosa para mim. Com 17 anos e apenas com esta viagem, tinha mil e uma histórias e aventuras para contar das experiências que só lá era possível viver. Foi a minha primeira viagem “ a sério”, não conhecia nenhuma das pessoas que me iriam acompanhar durante 15 dias e ainda nem era uma “adulta”. No entanto, com esta viagem percebi que tal como no amor, viajar não requer idade, cor ou estatura. Requer apenas paixão, sede pelo desconhecido e espírito livre.

Passados já uns dias desde o fim desta viagem, posso dizer que os Balcãs me marcaram de uma forma e intensidade que não estava à espera. Agora, além de querer lá regressar, já não sossego sem ter uma viagem agendada. Que chatice que é ter este “bichinho” sempre com fome!