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Piqueniques no Irão

Landescape - Piqueniques no Irão

Cheguei pela primeira vez ao Irão em 2011. Parti de Portugal de bicicleta e pedalando fui deixando para trás o Egipto, 10 dias antes da Primavera árabe; a Síria, no primeiro dia das manifestações no sul que deram origem à guerra que ainda hoje perdura; o Curdistão turco um mês antes da eleições e o Curdistão iraquiano, na sua beleza impensável ao comum dos ocidentais e eis que a Hamilton Road me leva à fronteira do Irão. Existem duas coisas que logo me chamaram à atenção: a hospitalidade e, logo de seguida, os piqueniques. Sobre a hospitalidade escreverei noutro momento. Fico-me com os piqueniques!

Um ano e meio mais tarde, aquando do meu regresso a Portugal, lembro-me de contar que os iranianos eram os campeões mundiais dos piqueniques e que estes deveriam ser elevados a Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO, pois não há um só local que nunca o tenha feito e que não o defenda como parte cultural de um país, já por si só, riquíssimo!

Seja nas zonas rurais, nas cidades, ao longo dos rios, na beira das estradas, nas centenas de jardins públicos, nos terraços das casas, nos logradouros, à sombra das mesquitas mas também nos cemitérios de mártires ou túmulos dos grandes poetas, há sempre lugar para um piquenique! O piquenique é um fenómeno social!

Na minha passagem de 38 dias pelo país, em 2011, tive o prazer de ser convidado para almoçar, jantar e dormir em casa de muitos desconhecidos que por vezes entravam em discussão por insistirem que deveria ser em casa de um e não do outro que eu iria almoçar! No fim, sempre um acordo: ao meio dia em tua casa, ao jantar, em minha! Na verdade, mais do que comer junto dos locais, o que isto me proporcionou foi o contacto com as casas iranianas, a sua arquitectura, hierarquia, divisão. Arrisco dizer que 80% dos iranianos ainda comem no chão, numa toalha estendida que é normalmente feita de tecido ou de plástico  – o sofreh – sobre o qual colocam uma parafernália de comida: arroz (muito arroz) com açafrão, diversos tipos de carne, saladas várias, pão, bebidas, doces… sentando-se em volta da mesma toalha e desfrutando de toda a comida, utilizando na sua maioria somente as mãos como “talhares”, o pão e, no máximo, uma colher. O convidado é sempre o centro das atenções. Os iranianos adoram ter convidados!

Quando a mesma toalha – o sofreh – é levada para fora, é como que uma reconstrução do espaço-casa mas fora de portas! E leva-se tudo: a comida e bebida que já “havia” em casa, mas também o fogareiro, o cachimbo de água (narguilé), o samovar para preparar o chá que acompanha obrigatoriamente todas as refeições e um sem número de outros apetrechos essenciais a um dia bem passado: mantas, almofadas, jogos, livros, brinquedos para os miúdos, pequenas arcas para manter os vegetais e o iogurte frescos, e claro: fruta, frutos secos, nougats, etc!

O hábito dos piqueniques é tão antigo quanto a religião Zoroastra – que teve a sua origem no antigo Império Persa. Para os zoroastras, o mundo foi criado em 12 dias. O dia de ano novo no Irão é, ainda hoje e apesar de ser um país muçulmano, uma data zoroastra e corresponde ao primeiro dia da Primavera, o dia 21 de Março. Este mês chama-se Farvardin. Assim, ao 13º dia, que é conhecido como Sizdah Be-dar – ou o chamado Dia da Natureza – que poderia trazer o caos depois do mundo estar “concluído”, as pessoas saem de casa para viver a natureza e são geralmente os jardins e as margens dos rios os locais favoritos. O Irão transforma assim este dia no maior piquenique do mundo, celebrando a Primavera!

Lembro-me de ter chegado ao Irão em Junho, sob um calor infernal e aquando da estadia em casa de um casal de couchsurfers em Isfahan, estes me terem convidado a “piquenicar” com eles e os amigos. Convite aceite, pois claro! Lembro-me que estava à espera de sair depois da hora de maior calor e lembro-me de ver as horas a passar. Lembro-me de ver a hora do jantar aproximar-se e lembro-me de sentir a minha barriga colada às costas. Lembro-me de pensar que se tinham talvez esquecido do convite e lembro-me logo a seguir de me dizerem: Vamos? – e eu olhar para as horas e serem dez da noite. Lembro-me de pensar que era brincadeira, mas a quantidade de arcas, sacos e apetrechos à porta mostrava-me que não. Quem faria um piquenique àquela hora? Lembro de uns quilómetros depois, por volta das onze da noite, chegar a um jardim e ver centenas de pessoas a fazer piqueniques e pasmar! Lembro-me de me ter apaixonado ainda mais pelo país e de regressar a casa por volta das duas da manhã! Impressionante!

O Irão demonstrou, uma vez mais, conseguir surpreender-me e mostrar-me que se há um lugar no mundo onde me sinto em casa, é ali!

 

Artigo assinado pelo mentor e líder de viagens Landescape Rafael Polónia