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Um dia diferente no sorridente Uganda

Pedro Quirino

Perdi os chinelos. Mas isso não me impediu de caminhar descalço pela estrada barrenta até um lugar que, olhando ao Google Maps, me parecia bastante promissor num pequeno promontório numa das margens do Nilo. Na verdade, até ando melhor sem eles mas não creio ser também essa a mesma razão pela qual metade das pessoas no Uganda andarem descalças. É tão comum que até lhe deram um verbo! “Why are you footing?” pergunta um deles intrigado pois na lógica deles, um “Mzungo” descalço, simplesmente não faz sentido. Presumo que todos tenham umas sandálias ou um par de botas domingueiras para levar à missa ou a casa dos sogros mas apenas e só para isso, ocasiões especiais. Tudo o resto, por aqui e por ali, se faz descalço.

Quase a chegar ao destino da minha caminhada, deparo-me com um portão no meio da estrada sem nada a ladeá-lo, muro, cerca, nada. Apenas um portão no meio do nada. É assim neste caricato Uganda. Do lado de “dentro” um homem sentado dá-se ao trabalho de, muito diligentemente, mo abrir, para mim, num gesto de grande profissionalismo na sua condição de porteiro qualificado. Com um sorriso tímido sussurra um “welcome”, só perceptível por ser previsível. Usa um crachá com letras gastas ao peito que lhe deve atestar o seu Doutoramento em abrir portas. Novamente num sussurro, como aliás é bastante comum por aqui em sinal de respeito, diz-me “it’s ten dollars for entrance, please”. Este era, sem dúvida, um homem esperto e empreendedor que montou um portão para testar a sua sorte com os poucos turistas que por ali passam. Quase tão esperto como a senhora que ontem ao fim do dia montou a sua pequena banca no meio da rua e apenas com um corta-unhas começou a cortar unhas a freguês após freguês e para meu espanto, passados 5 minutos já formavam fila. É surreal as originalidades de negócios que no Uganda se criam e que só aqui neste lugar do mundo fazem sentido!

Voltando ao nosso porteiro. Tudo aqui é negociável e nunca lhe iria pagar os 10 dólares mas, para infortúnio dele, não tinha trazido a carteira comigo. Digo-lhe “Sebbu, I don’t have my wallet with me.” Faz-me o olhar e o som de como quem diz “malandro, tu sabes…” Senta-se na cadeira azul de plástico da Pepsi e diz “OK”. Curioso como todos os povos têm gestos, sons, olhares que comunicam algumas coisas de uma forma tão mais expressiva.

Líder da Landescape pescando

Alguns metros mais à frente, chego a um sítio verdadeiramente impressionante onde o Nilo se abre e corre apressadamente entre ilhas e ilhotas formando rápidos e cascatas em toda a minha volta. Deslumbrado, volto a sentir-me qual Livingstone e sento-me no cimo de uma rocha para contemplar este cenário onde alguns pescadores, apenas munidos de remos, lutam contra as correntes dum rio furioso por rotas estratégicas e mais que percorridas e ensinadas pelos seus antepassados para chegar a outras ilhas ou margem oposta. Notoriamente não é fácil. Alguns não conseguem à primeira e voltam a tentar as vezes que forem precisas para lá chegar. Mesmo quando o destino é a jusante, a rota não é a direito e muito menos entregarem-se à deriva é uma opção sensata. As águas turbulentas têm segredos que apenas estes homens lhe conhecem e no Uganda, todos devem ter histórias de barcos virados para contar.

Desço de pedra em pedra até à água para lavar os pés. Mesmo ali ao lado, 3 rapazes preparam os apetrechos dentro do barco para se fazerem ao rio. Atento em tudo aquilo que fazem e é com igual curiosidade que me observam interessados nos seus afazeres. Experimento conversa com perguntas triviais como os peixes que apanham ou os anos que levam de faina ao que respondem orgulhosamente. O mais velho chama-se Tony, os outros têm nomes locais que não consegui memorizar. Quando dou por mim estou dentro do barco pronto a zarpar.

Dizem-me que primeiro têm de ir a uma ilha apanhar isco e lá vamos. Começam por remar contra-corrente apontando a um dos rápidos. Assim que entramos em águas agitadas, sinto o barco a girar em sentido contrário e a entregar-se completamente à força da corrente ao mesmo tempo que ganha espantosa velocidade aos saltos de vaga em vaga. Apreensivo, olho para Tony que parece ter tudo sob controlo e fazendo tudo aquilo parecer premeditado. Uns breves segundos, outros tantos salpicos depois e voltamos a águas tranquilas uns 300 metros mais abaixo e já do outro lado do rio. Encostamos na margem de uma das ilhas e com as tarefas bem ensaiadas de quem faz o quê, atracam o barco e entram pela vegetação densa da ilha. Esforço-me para tentar segui-los mas é impossível. Conhecem cada pedra, cada tronco como se toda a vida tivessem feito aquilo e certamente seria esse o caso. Chegamos ao outro lado da ilha e um deles, o irmão do meio e o mais atlético, já de cuecas, mergulha e começa a nadar num estilo muito estranho mas eficiente pelas ondas e entre pedras até chegar a uma rocha no meio do rio para colher uma alga que serve de isco. Regressa 15 minutos depois com as cuecas cheias de isco (hilariante mas decidi não tirar foto) e seguimos para o pesqueiro.

habitante local uganda

Ensinam-me a iscar e estou pronto! Cada um em cima de sua pedra aguarda a sua sorte. Num instante de racionalidade ocorreu-me algo e pergunto: “Sebbu, are there crocodiles here?” Ele esboça um sorriso de Mona Lisa que não consegui desvendar e deixa-me sem resposta. Lembrei-me da máxima que já usei várias vezes com outros mas nunca comigo mesmo: “Não faças perguntas para as quais não sabes lidar com a resposta.” E continuamos a pescar em cima do calhau.

Artigo escrito pelo líder de viagens Pedro Quirino, líder da viagem ao Uganda. Se gostaste deste artigo, recomendamos que leias também a crónica de viagem na Aldeia de Rubuguri.