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Ana Moura, voluntária da From Kibera With Love

Marta Baeta e Ana Moura na associação From Kibera With Love

A Ana Moura é professora de Matemática no Ensino Superior, numa escola de Engenharia. Tem 43 anos e é natural de Lamego, apesar do Porto lhe ter conquistado o coração há já bastantes anos. Confessa-se uma viajante compulsiva e uma apaixonada por pessoas, e talvez tenham sido estas duas características que ainda que inconscientemente a tenham feito despertar para o projecto da Marta Baeta e ser voluntária no projecto From Kibera With Love.

Tomou conhecimento da From Kibera With Love através de um amigo enfermeiro que fez voluntariado na associação uns anos antes e decidiu arriscar. Por impulso, admite! Tinha já lido um pouco sobre o assunto, o que fez aumentar a curiosidade em conhecer África e sem pensar muito decidiu usar o período de férias para abraçar esta missão onde pudesse dar um sentido diferente a estes dias, em que normalmente privilegiamos o descanso e o dolce far niente. Começou assim a sua longa e intensa relação com o Quénia, e especialmente com Kibera.

Hoje, a Ana Moura, é uma das pessoas a quem damos voz na Landescape, através da partilha do seu testemunho enquanto voluntária da From Kibera With Love, um projecto que tanto nos orgulhamos de apoiar através da nossa viagem ao Quénia, que acontece duas vezes por ano.

O confronto com as condições difíceis de vida numa favela é certamente duro. Sentes que foste bem recebida pela comunidade local por estares associada e trabalhares como voluntária no From Kibera With Love ou os quenianos são naturalmente hospitaleiros?

Ana Moura: A envolvente do espaço da associação é uma zona das mais movimentadas da favela, zona de comércio e de transportes para o centro de Nairobi. Não existia convívio fora do espaço, para além do James, a quem comprava uma porção de ananás todos os dias. Penso que algumas pessoas que trabalham no caminho de 20 minutos entre a casa dos voluntários e a associação sabem quem somos, pois diariamente veem um grupo de “brancos”, arrisco-me a dizer os únicos, que por lá passam. Uma ou outra pessoa cumprimenta-nos, as restantes ignoram-nos. Por vezes, atiram-nos com um “muzungo”, expressão usada em África para se referirem a um “branco”.

Quando estiveste no terreno a trabalhar na missão de voluntariado, quais sentiste serem as principais dificuldades?

Ana Moura: As dificuldades diretamente associadas ao meu trabalho como voluntária, que consistia em dar aulas/revisões de Matemática do 4º ao 11º ano, prenderam-se unicamente com o não ter tempo de preparar conteúdos ou refletir sobre metodologias. Foram 8 horas consecutivas de aulas, durante 6 dias da semana, ao longo de todo o mês de Agosto. Rapidamente tive de entender a forma como lhes eram ensinados os conteúdos e, muitas vezes, improvisar atividades mais lúdicas que os mantivessem motivados na aprendizagem.

Senti também dificuldade na gestão do espaço físico onde eram leccionadas as aulas, diminuto para receber tantas crianças, cerca de 70, e a necessidade permanente de ter voluntários e funcionários que garantam todas as necessidades de trabalho dia após dia.

De um modo mais filosófico, penso que a maior dificuldade é transmitir-lhes tudo o que os nossos olhos já viram e fazer-lhes acreditar que a educação, as regras básicas de higiene, saúde, de viver em sociedade, e todos os restantes valores que a associação lhes transmite os poderão levar para fora de Kibera. Não podemos querer que aquelas crianças sonhem, quando o horizonte delas se limita à favela.

O que te fez querer regressar uma e outra vez?

Ana Moura: O ter-lhes prometido, às crianças, que voltaria! O foco principal da associação é a educação, um trabalho que tem de ser contínuo, duradouro, onde os frutos que conseguiremos colher demorarão anos a amadurecer. A From Kibera With Love tem feito um trabalho excelente ao longo de todos estes anos, tem conseguido estender a sua atuação para lá da educação, mas isto só se consegue com persistência e muita ajuda de mãos humanas. Eu sou apenas uma delas!

Que balanço fazes da relação estabelecida com a Marta Baeta ao longo de todo este processo?

Ana Moura: A Marta, que só conheci nessa minha primeira missão, começou por ser a minha mentora e a única responsável pela associação no Quénia, com quem mantive uma relação de trabalho e de algum companheirismo, quando, fortuitamente, saíamos de Kibera para jantar em Nairobi. Aquela rapariga que me levou ao coração de Kibera, um campo extenso cinzento e castanho, das chapas das casas e da terra dos caminhos, onde o colorido se observa no lixo espalhado por todo o lado, dos esgotos, da falta de água potável, da falta de esperança… a tal rapariga que, quando lhe pergunto “O que vês aqui, Marta, para aqui continuares?”, me responde “É aqui que eu me sinto bem, é aqui onde eu gosto de viver!”. A Marta era a tal miúda por quem tinha/tenho uma admiração profunda, por tudo o que conseguiu construir, pela garra e insistência com que luta, com o seu feitio difícil, mas que a protege e é determinante na manutenção da associação em Kibera.

No meu regresso a Portugal, após esta minha primeira missão, continuei a colaborar com a associação, cá com outras tarefas, e rapidamente se estabeleceu uma relação de confiança e confidência. Dois anos passados, eu e a Marta somos amigas e estamos profundamente unidas nesta missão! 

Sentes que a From Kibera With Love de facto faz a diferença na vida daquelas crianças e respectivas famílias?

Ana Moura: Sem dúvida nenhuma. Rapidamente observamos os valores e regras que lhes foram transmitidas, a entreajuda, o companheirismo e até a relação de família alargada com que as crianças se relacionam entre si. Esta ajuda estende-se também aos pais e restante família, quer pelos apoios alimentares e de produtos de higiene, quer pela tentativa, mais difícil e por vezes inglória, de os incentivar a uma vida de trabalho, de responsabilidade e de construção de um projeto.

O que achaste do Quénia? E dos quenianos?

Ana Moura: O Quénia, ah, o Quénia! É, literalmente, a terra do “Hakuna Matata”! Desde a tranquilidade e beleza das suas praias e do Índico ao desfrutar da vida animal na savana. São dezenas de espécies de animais que nos presenteiam com o seu dia-a-dia, sem se incomodarem por andarmos por lá, respeitadamente, a observá-los. Confesso que fazer um safari não era dos objetivos principais nas minhas viagens, mas, desde então, passou a ser visita obrigatória sempre que lá voltar.

Já a minha relação com os Quenianos resume-se quase exclusivamente aos habitantes da favela, tendo tido algum contacto pontual na minha ida ao Safari de Amboseli e quando acompanhei, juntamente com a Marta, as 10 crianças que melhor sucesso tiveram nos estudos desse ano, à praia em Diani.

Um Queniano adulto é uma pessoa de face séria, de olhos tristes, de uma postura conformada, que vive em busca da subsistência para o dia. Creio que ainda saram as feridas de anos de colonialismo britânico. Vieram para Nairobi em busca de oportunidades e de um mundo novo, mas foram aglomerados em várias favelas, sendo Kibera a maior delas, onde o Governo se demite de atuar de forma a dar-lhes a dignidade que todo o ser humano merece.

Despertou-te a vontade de conhecer outros territórios em África?

Ana Moura: Sim, tenho muita vontade de conhecer outros territórios da África subsariana, tanto em missão, como em backpacking.