A viagem nunca é só sobre nós

A Landescape alterou recentemente os Termos e Condições das suas viagens adicionando ao ponto 6. Autoridade do líder da viagem a seguinte informação: Atitudes que afetem de alguma forma as pessoas do grupo, outros turistas ou locais dos lugares visitados, no que toca ao sexo, raça, género, orientação sexual ou outra razão que seja discriminatória, é interpretada pela Landescape como sendo contra os seus valores e que afeta o bem-estar das pessoas envolvidas e, por essa mesma razão, pode resultar no cancelamento imediato da sua viagem.

Neste artigo, assinado pelo Francisco Silva do Departamento de Comunicação e Marketing, exploramos um pouco mais o tema e a posição da Landescape relativamente ao mesmo.

 

A viagem é um tema que nos acompanha desde sempre. Um dos textos fundacionais do Ocidente, a Odisseia de Homero, centra-se precisamente numa longa jornada. Mas há tantas formas de percorrer o mundo, tantos motivos para nos lançarmos no desconhecido. Qual é, então, o denominador comum a todas as experiências, relatos e práticas de viagens que estão hoje ao nosso dispor? À medida que galgamos o espaço, que atravessamos fronteiras e encaramos paisagens inéditas, agita-se dentro de nós um espelho do mundo que conhecemos pela primeira vez. Ao movimento do nosso corpo, ao desenho do nosso percurso por montanhas, planícies e povoações, corresponde um crescimento interior no mesmo compasso. Como se a nossa identidade – a herança cultural, a forma como dispomos dos nossos sentidos ou a relação que estabelecemos com a natureza e com os recortes geográficos – estivesse também ela em movimento. Não se trata de subir as Ilhas Lofoten: trata-se de escalar os obstáculos que nos colocamos. Não se trata de alcançar a remota ilha de Socotra: trata-se de sair da nossa zona de conforto. É claro que se a viagem se resumisse a este olhar para dentro, a nossa experiência no meio das multidões de Goa ou da Grand Central Station não deixaria de ser profundamente solitária. Mas nunca é só sobre nós!

 Este novelo que sentimos na barriga, este entusiasmo difícil de controlar perante um mundo muito maior do que imaginávamos, faz-nos levantar a cabeça, procurar o que é que numa paisagem diferente nos empurra para a mudança, para a adaptação. É assim que o diálogo se inicia: reconhecendo a nossa vulnerabilidade e aceitando-a, assumindo a nossa disponibilidade para aprender e ouvir. A dada altura, enquanto partilhamos mundividências, cheiros, cores e sabores, as fronteiras quebram-se, percebemos que aquilo que definia a nossa individualidade se espalha e se prolonga na vida dos outros. Neste movimento comum, aprendemos a respeitar a nossa presença nos outros e a presença dos outros em nós: o desenho de uma cidade dá sentido aos hábitos, o clima agreste torna inteligível o vestuário, a biodiversidade explica a culinária. No meio de tudo isto, a chave é reconhecer que este é um percurso inacabado, nunca inteiramente nosso, sempre em construção. O destino está nos entretantos, naquilo que levamos connosco através da compreensão. 

Muito antes da versão contemporânea do turismo, acreditava-se que a vida adulta só estaria ao alcance de quem se submetesse a um ritual de passagem. Foi assim que no século XVII surgiu o Grande Tour. Rapazes de famílias abastadas, sobretudo do mundo anglo-saxónico, viajavam pela Europa para contactar com realidades e línguas diferentes. A sua maioridade só se consumava assim. Apesar de relativamente positivo – e precursor -, este ritual era determinado por profundas distinções de classe e de género, mantendo-se uma experiência praticamente inacessível a mulheres e membros da classe trabalhadora. Só na segunda metade do século XIX, com a criação dos caminhos de ferro e dos navios a vapor, se democratizou esta peregrinação. Nos Estados Unidos, uma faixa social mais heterogénea partiu ano após ano para os grandes destinos europeus, eternos símbolos de distinção, cultura e requinte. Mark Twain dedicou a esta travessia transatlântica o seu Innocents Abroad, de 1869, livro em que descreve as vivências de quem viajava pela primeira vez pelo mundo: “Viajar é fatal para o preconceito, para a brigotomia e para as mentes-fechadas, e muitas das nossas gentes precisam disso. Não se conseguem visões amplas e saudáveis dos homens e das coisas ficando sempre no mesmo cantinho do mundo durante toda a vida”.

Mas o que são estas “visões amplas e saudáveis dos homens e das coisas”? Como reconhecer numa cultura elementos que nos ajudam a crescer e nos tornam disponíveis para acolher a diferença?

Em primeiro lugar, aprendemos a aceitar que, em culturas diferentes, as prioridades mudam. Não se trata apenas de assistir a outras formas de organização da vida. Trata-se de compreender a relação íntima entre os elementos que compõem uma identidade cultural. A um só tempo, esta posição incentiva a desconstrução dos estereótipos que carregamos connosco e revela as nossas próprias limitações, o leque reduzido de respostas de que dispomos para uma determinada realidade. Viajar obriga-nos a pedir ajuda, indicações, a fazer perguntas. O conhecimento é gerado em movimentos de partilha, e o diálogo estabelece-se com frequência em situações imprevistas, puras obras do acaso. Somos obrigados, por isso, a abandonar o conforto dos nossos círculos sociais e a exercitar a empatia, a procurar pontos de contacto nos meios que percorremos. 

É também através do reconhecimento de uma cultura distinta que identificamos as nossas próprias singularidades. Parte do conforto do regresso a casa prende-se precisamente com esta questão: se temos tanta dificuldade em tornar o nosso quotidiano menos familiar – encontrando-lhe as subtilezas, os rituais já naturalizados e as peculiaridades da nossa vida -, a viagem oferece-nos uma perspetiva para os nossos próprios hábitos. Não só descobrimos novos caminhos para responder a problemas práticos, como deixamos de assumir as nossas escolhas como dados adquiridos. Damos conta do caminho que percorremos, individual e coletivamente, para chegar a um determinado ponto e, se for o caso, podemos iniciar um trajeto inverso, paralelo ou mais demorado, desconstruindo ideias feitas. 

Viajar também é sentir saudades de casa. É pela nostalgia (seguindo a etimologia da palavra, um desejo de estar em todo o mundo como se estivéssemos em casa) que identificamos a experiência comum e transversal que nos une. Em sociedades culturalmente tão diversas, a viagem ajuda-nos, por um lado, a reconhecer a importância da livre circulação de todas e todos, e, por outro, a estabelecer relações de empatia e compreensão com quem encontra no nosso país a sua nova casa. Além disso, num tempo em que damos os primeiros passos na discussão alargada do passado colonial de grande parte do ocidente, a nossa disponibilidade económica para viajar pode, em simultâneo, remar contra a racialização e a xenofobia e quebrar o exotismo com que olhamos para algumas sociedades. Não deixando de reconhecer (e de celebrar) as caraterísticas específicas dos países que visitamos, podemos igualmente dar conta de que determinados preconceitos identitários se baseiam em meras projeções e inseguranças, que rapidamente se desconstroem a partir do convívio. 

No nosso dia-a-dia, deixamo-nos orientar por vários protocolos e rituais. O nosso cumprimento, ou mesmo a noção de espaço pessoal, inscreve-se neste conjunto de códigos. Viajar é uma oportunidade única para diversificar as relações interpessoais. Na América Latina, por exemplo, talvez tires as mãos dos bolsos para dizer olá, mas os braços não se ficam pelo aperto de mão e sobem para um abraço fraterno. 

Num tempo em que o cosmopolitismo é uma linguagem universal, é especialmente importante ter presentes determinados princípios. Num diálogo intercultural, caímos muitas vezes na tentação de nos situarmos em pequenos regimes insulares, organizando o mundo à nossa volta através de fronteiras bem definidas. Se hoje temos ao nosso dispor um arquivo visual imenso dos países que ainda não visitámos, é importante ter em mente que cada representação destes espaços, culturas e povos se baseia numa construção subjetiva, que pode perfeitamente servir-nos de referência, mas que não deve ser naturalizada, como se de uma essência se tratasse. No fundo, importa reconhecer que a identidade, a nossa e a das pessoas que gentilmente nos acolhem, é uma estrutura fluida, sempre aberta a contaminações saudáveis. 

Se chegaste a este texto, é porque estás no caminho certo. Por isso, nada como preparar a mochila e seguir o conselho de Twain. Percorre as nossas viagens e deixa que a vida se encarregue do resto.

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