Sikkim e Butão: há esperança nas montanhas

Pensar no Butão remete-nos, quase automaticamente, para as famosas listas de factos interessantes sobre países. É através de um desses factoides que, para muitos de nós, se inicia a relação com esta nação oriental: a população do Butão é uma das mais felizes do mundo. Este índice, levado a cabo pela World Happiness Report, comporta vários parâmetros, mas o segredo para a distinção parece residir na saúde e na felicidade dos seus habitantes. Em 2020, apesar do crescente fluxo de turismo no país, o Butão não registou uma única morte por COVID-19. Há explicações mais e menos óbvias, mas quase todas nos transportam para um cenário de harmonia entre seres humanos e meio ambiente.

Se é verdade que a cultura budista de base desempenha um papel claro neste imaginário, não será menos importante ter em conta que a vitalidade da região depende da estabilidade dos seus ecossistemas. A riqueza das suas montanhas traduz-se num número impressionante de glaciares: são mais de 2700. Mas esta abundância é também sinónimo de uma responsabilidade tremenda: muitas destas formações começaram já a derreter, provocando inúmeras cheias e deslizamentos de terras. Além disso, num país em que a produção agrícola é a primeira fonte de rendimento para cerca de 80% da população, as alterações climáticas fazem-se sentir com um impacto redobrado. 

Em resposta a estas mudanças, o parlamento butanês vem introduzindo várias cláusulas constitucionais que tanto responsabilizam os seus cidadãos pela preservação do ambiente como fomentam mudanças estruturais nesta corrida contra o tempo. Em documento oficial, declara-se que cada butanês é um guardião dos recursos naturais e do ambiente do Reino, para benefício desta geração e das que hão-de vir. A este estatuto acrescenta-se outra medida aplicada ao terreno: pelo menos 60% do território tem de corresponder a floresta. O próprio parlamento, o Chi Tshog, baniu o uso de garrafas de plástico no seu interior e planeia, no futuro, deixar de usar papel. No segundo dia de cada mês, é também decretada uma “Hora de desperdício zero”, durante a qual todos os trabalhadores deste edifício, membros do parlamento incluídos, devem limpar e reciclar o lixo.

A outubro de 2023, e em parceria com as Nações Unidas, foi também anunciado pelo Governo Real do Butão um extenso plano que procura responder em detalhe às alterações climáticas. O “Plano Nacional de Adaptação” resulta de um esforço coordenado entre serviços públicos, sociedade civil e Academia. Identificando as zonas mais vulneráveis da nação, propõe planos de ação assentes num levantamento prévio das reservas nacionais de água e de outros recursos essenciais. 

O esforço do Butão vai sendo gradualmente compensado. No início do presente ano, um estudo conduzido pelas Nações Unidas dava conta de um crescimento de 27% da população de tigres-de-bengala em solo butânes entre 2016 e 2024. Mais do que uma vitória para o país, esta é uma vitória para a biodiversidade do nosso planeta.

Localizado num pequeno triângulo entre o Butão, o Nepal e o Tibete, o estado do Sikkim foi considerado em 2016 a primeira região totalmente orgânica da Índia. À semelhança do que acontece com os seus vizinhos, a religião desempenha um papel importante nesta equação. O animismo indiano manifesta-se em crenças, rituais e festivais que encontram no património natural a casa de várias divindades. Só em solo indiano há 14 mil bosques sagrados, protegidos em nome de espíritos ancestrais e extremamente ricos na sua fauna e flora. Comunidades como os Bishnois do Rajastão baniram por completo a matança de animais e o derrube de árvores verdes. Os Mishmis, em Arunachal, consideram os tigres seus irmãos, e a tribo Irula, em Tamil Nadu, é conhecida pelo seu conhecimento profundo da linguagem das serpentes. 

No Sikkim, o Demazong é uma paisagem sagrada gerida por comunidades étnicas Lepchas, Bhutias e nepalesas. Nas suas escarpas repousa o Kanchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo e um símbolo da coexistência entre pessoas e natureza. Para os Lepchas, também conhecidos como “crianças eternas da mãe-natureza”, a conservação do património natural foi sempre uma prioridade. Uma parte considerável dos seus contos populares baseia-se em previsões de desastres ambientais, como a ciranda dos ursos pelas aldeias ou a aparição dos lobos. Por sua vez, a comunidade Kirat Rai celebra o “Sakewa”, um festival de natureza em que dança e movimentos ritmados simulam as diferentes fases da vida de uma garça. 

Mas, tal como o meio-ambiente, estas tradições encontram-se em risco. Num esforço a três, Nações Unidas, Governo da Índia e GEF (Global Environment Facility) iniciaram um plano de conservação cultural assente em projetos de base comunitária. Esta iniciativa inclui a preservação da biodiversidade, a documentação do conhecimento e sabedoria tradicionais, bem como o fortalecimento das relações entre as comunidades e os mosteiros. Neste longo caminho a percorrer, o turismo socialmente responsável pode desbloquear vários problemas da região e garantir a preservação destas tradições. O Governo do Sikkim tem incentivado os seus cidadãos a participar ativamente na proteção das florestas. Através da criação de comités populares – Comité de Gestão Florestal, Comité de Gestão da Biodiversidade -, a participação cívica vem-se desenvolvendo na base, no coração das comunidades. A par da criação destas entidades, milhares de jovens estão atualmente a receber formação para trabalhar no terreno, ora gerindo a floresta, ora coordenando novas práticas de turismo responsável na região. 

Se os últimos anos têm sido de renovação e crescimento, nada melhor do que ouvirmos quem tem testemunhado de perto estas rápidas alterações culturais e sociais na região. Miguel Neves, líder Landescape da viagem “Trekking nos Himalaias: Sikkim e Butão”, traça-nos um breve retrato da sua experiência nestas paisagens montanhosas e partilha as coordenadas da sua liderança, assente em comportamentos sustentáveis e em constante diálogo com o património em seu redor:

“A minha experiência está ligada à montanha. Frequentei recentemente um curso de trekking no Instituto de Montanhismo dos Himalaias, um organismo público. Já estive em muitas regiões da Índia e não há dúvida de que no Sikkim a realidade é outra. As ruas estão todas limpas e há um cuidado muito maior. Há uma mistura enorme das civilizações ali à volta: tibetanos, nepalis, bangladexenses. No fundo, trata-se de uma concentração cultural muito grande de pessoas ligadas à montanha e à natureza pela sua religião. 

No Instituto, durante todos os cursos, há um incentivo para que locais e alunos apanhem o lixo dos caminhos e denunciem alguma situação grave que testemunhem. Lutam muito contra a poluição na montanha recolhendo todo o lixo que produzem durante o curso e trazendo para baixo todos os resíduos que encontram em altitude. Ao contrário do que acontece no Everest, por exemplo, em que há já uma entidade que procura minimizar o impacto ambiental do turismo em massa, no Sikkim, não havendo esse fluxo de pessoas, são os próprios locais que retiram todo o lixo da montanha. São extremamente cuidadosos.” 

 

Junta-te ao Miguel Neves na viagem “Trekking nos Himalaias: Sikkim e Butão”.

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