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Tbilisi, não foi amor à primeira vista. Crónica de viagem por Rafael Polónia

Centro histórico de Tbilisi

O sentimento que tive por Tbilisi, na minha primeira viagem, e enquanto olhava para trás do banco traseiro do táxi desenrascado que me levou ao aeroporto da capital, naquela noite cerrada, com chuviscos ao barulho, foi mesmo esse: não foi amor à primeira vista.

Dois meses antes, ainda em casa e depois de já ter feito a compra dos voos para a Geórgia, pensava se valeria mesmo a pena dedicar parte do tempo que tanto me faltava naquela altura, a percorrer um país que, diziam, ser dos mais hospitaleiros, simpáticos e genuínos da Europa, ou se havia errado na minha escolha de um destino – a sensação que tenho sempre que parto para um novo destino, curiosamente.

 

A partida para a Geórgia

Estava tudo marcado e pela primeira vez na minha vida, sentia vontade de ficar, em vez de partir. Nunca antes me havia acontecido. Curioso ou não, estava cansado de andar de um lado para o outro de avião, eu que com a Landescape já tinha feito 5 viagens com grupos a Istambul, até Junho. A ideia de acompanhar viajantes que comigo decidem partir é das coisas que mais me dá gozo, pela partilha que todos fazemos! De apanhar aviões para me deslocar para os locais, de longe o que me dá mais prazer.

A primeira sensação ao chegar a Tbilisi, era que iria ser uma autêntica aventura: nenhum país que eu conhecia até então, me oferecera uma garrafa de vinho tinto no momento em que nos carimbam o passaporte, dizendo Bem-vindo! Muito menos das mãos de uma agente da autoridade, vestida a rigor. É verdade que os georgianos se orgulham – verdade ou não – de serem o país que inventou o vinho (no Irão dizem o mesmo), mas daí a incitar-nos ao consumo antes ainda de entrarmos no país, confesso que é algo de bizarro. Fosse isto nos anos 80, penso que não gastava uma fotografia a documentar o momento, mas na era do digital, foi naturalmente a minha primeira acção! Vinho com direito a selfie! Sei sempre que o primeiro dia num país que desconheço é motivo para julgar a toda a hora: vou ser enganado! E foi exactamente isso que me aconteceu para chegar ao centro da capital, ser enganado por um taxista de última hora que, além de me subir o preço 3 vezes mais do que o normal – atenção, já depois de regateado! – ainda levou mais 10€, por pura distração minha.

Ponte da Paz, Tbilisi

Viva a Geórgia! Relaxa, Rafael!

Fui recebido pela recepcionista do alojamento que havia marcado, uma mulher em pijama às riscas cor-de-rosa no meio duma praça com edifícios decadentes e a falar-me em russo. Genial! Levou-me até ao local onde iria pernoitar, com a particularidade de ter uma parede que fazia a divisão do compartimento, que não ia até ao tecto, e que por isso me proporcionou uma noite de pura sinfonia entre ressonares e assobios afinados, do ser que se encontrava do outro lado e que, sem o conhecer, já me causava má impressão. Tudo perfeito até agora! Adormeci!

 

Tbilisi à primeira impressão

Tbilisi acordou quente. À primeira impressão, achei tudo um pouco delapidado, com varandas precipitadas sobre a rua avisando que podiam cair a qualquer momento, com vielas onde a guerra havia deixado mossa e anúncios de hostels a cada esquina, anunciando saldos nocturnos e promessas de festa junto a outros viajantes. Percorri a cidade em busca de encanto, como se o encanto de um canto da Europa fosse fácil de ser encontrado.

Na verdade, Tbilisi começou a encantar-me somente no segundo dia, já bem mais relaxado e com a cabeça no sítio, que é o mesmo que dizer, sem uma rota traçada que me levasse a sítios que sabia existirem, a cafés que conhecia de dicas amigas, a igrejas e catedrais tão antigas quanto a história deste país porque, se bem que tudo isto me seduza e me encante também, o que me atrai verdadeiramente quando viajo, é o local onde tropeço sem saber que existe. E desses, está Tbilisi cheio: jardins recatados e cheios de silêncio, pequenos cafés nas encostas do tão visitado forte, pátios escondidos nas ruelas onde a guerra, talvez, tenha passado, onde sim, varandas de um trabalho impressionante, quase caem sobre nós e restaurantes onde o volume da música é tão elevado que se sai, não sei se de barriga cheia ou de ouvidos a zumbir. O encanto está também num espaço religioso que agrada a “gregos e troianos” (a primeira mesquita que entrei, onde sunitas e xiitas rezam em conjunto), no teleférico que percorre a cidade pelo ar, até ao forte que tudo olha de cima, no encontro com dois adolescentes que envergando dois grandes cartazes, pedem em inglês e no idioma local, uma ajuda para poderem ir ao maior festival de música do país: “Um sonho, o maior sonho!” – dizem-me e a quem dou todas as moedas que tenho no bolso e lhes peço para se divertirem!

Alfarrabistas no centro da cidade

O que visitar em Tbilisi

Na verdade, a capital da Geórgia é uma cidade que nos permite percorrer vários caminhos, conforme a vontade e o interesse de cada um. Se optarmos pelos edifícios religiosos, além da Mesquita da zona histórica, com o seu minarete em tijolo vermelho que se distingue da envolvente, no sopé do forte Narikala, temos várias igrejas e catedrais, da qual destaco, sem qualquer dúvida, a Basílica Anchiskhati, a mais antiga da capital, construída no século VI. Se por fora nos parece um edifício sem qualquer beleza que a destaque das demais, por dentro a história encarrega-se de nos parecer pequenos. O ambiente escuro e pesado, o cheiro e o fumo das velas que queimam a toda a hora e sobretudo os frescos com mais de 400 anos deste espaço religioso da igreja ortodoxa da Geórgia, fazem-nos ficar só mais um bocado, enquanto ouvimos alguém que entra quase em silêncio ou o padre, como que escondido a um canto, rezando. Se quisermos ainda visitar outro espaço religioso de outra fé, podemos então caminhar até junto do rio, na direcção da ponte Metekhi e parar na Grande Sinagoga, estabelecida entre 1895 e 1903, simples por fora, mas toda em tons de azul e com pinturas representativas de versos da Tora e orações.

Se desejarmos ter uma visão mais futurista da cidade, é inevitável uma visita à Ponte da Paz. Inaugurada a 6 de Maio de 2010, é uma estrutura com 150 metros que liga a parte antiga da cidade ao novo bairro, construído do lado de lá do rio Kura. A ponte, desenhada pelo arquitecto italiano Michele De Lucchi, leva-nos já na parte nova à Sala de Concertos e Exposições da capital, no parque Rhike, uma obra do Studio Fuksas, um gabinete de arquitectura italiano e que demonstra bem a vontade do país de se manter na vanguarda da arquitectura.

Street art nas paredes de Tbilisi

Uma viagem a Tbilisi não ficava completa, porém, sem uma visita à zona de Abanotubani, onde neste momento existem os 5 únicos banhos públicos. À medida que nos aproximamos, o cheiro a enxofre aumenta e descendo uma das escadas que nos leva à profundeza da terra, é entrar num mundo à parte. O nome da cidade deriva da palavra “quente” e conta a lenda que as águas termais foram descobertas depois do falcão do Rei Vakhtang Gorgasali ter descoberta a água. Mesmo que os primeiros banhos públicos remontem ao século I, todos eles são baseados na tradição persa. De salas comuns a compartimentos privados, alguns destes banhos estão abertos 24 horas. No Sulphur, só existe a possibilidade de espaços privados, enquanto no Nº5, o mais antigo de Tbilisi, com 300 anos, podemos encontrar espaço público e privado, para homens e para mulheres e à entrada, é ainda possível ver na placa a anunciar o Banho, o martelo e a foice cruzados, lembrando o antigo Império Soviético!

E foi só depois de Tbilisi me deixar entranhar um pouco no seu labirinto de ruas, de história, de cafés e restaurantes entre o kitsh e o trendy, que dei por mim a desejar ficar mais tempo. Um pouco mais, só. E isto podia acontecer em todo o lado, sim, mas não aconteceu. Foi ali, em Tbilisi e estas pequenas descobertas e encontros sem roteiro marcado, fizeram com que começasse a gostar de uma cidade que me custou deixar mais tarde, noite adentro, olhando para trás, pela janela daquele táxi desenrascado e pensando: não, não foi amor à primeira vista.

Crónica de viagens escrita pelo líder da viagem ao Cáucaso Rafael Polónia.