Beirute, despreocupadamente desmaquilhada e perpetuamente apaixonante

Há qualquer coisa de especial quando se visita um lugar pela primeira vez, em particular quando se lê no monitor um destino como “Beirute”, que há muito habita no imaginário dos viajantes. Há um brilho no ar, um aroma a aventura, um pulsar que se sente.

Depois de mais de 7 horas de voo, com escala em Frankfurt, tenho os primeiros vislumbres da cidade ainda dentro do avião. Já perto do Aeroporto Rafic Hariri, mesmo junto ao Mediterrâneo, percebo que a zona circundante se aparenta a uma grande favela. É ali, como saberia pouco depois, que se localiza um dos redutos do Hezbollah. “Olá Beirute”, pensei, com aquele misto de desejo de aventura e nervoso miudinho bom.

A viagem até à cidade foi intensa. O Mercedes dos anos 80 não tinha ar condicionado mas as janelas iam abertas, de modo a poder sentir o calor – e o trânsito caótico – que me dava as boas-vindas à mítica capital do Líbano.

Ao longo do caminho, muitos outdoors homenageiam o Hezbollah e os seus dirigentes. Afinal, são eles que, a mal ou a bem, há muito seguram o Líbano.

O motorista não falava inglês. Nem francês. Este meu espanto não é pedantismo europeu: no Líbano, o ensino é bilingue. Desde o 1º ano de escolaridade, as crianças aprendem árabe e outra língua (inglês ou francês), sendo todas as disciplinas ministradas em uma destas. Tradicionalmente, famílias cristãs optam pelo francês e depois, mais tarde, adicionam o inglês como terceiro idioma. Já as famílias muçulmanas escolhem o inglês de início, mas depois evitam ao máximo ter de aprender o francês.

Beirute não é uma cidade limpa nem cuidada. Está demasiado ocupada a tentar sobreviver. Há, no entanto, muito por onde nos fascinarmos. Desde já, essa sensação indelével de estar noutra realidade e de sentir que mergulhamos noutra cultura. À chegada ao centro, na Praça dos Mártires, saúda-me a Mesquita de Mohamed Al Amin. Foi o primeiro rasgo de familiaridade, com traços arquitectónicos que já conheço da Turquia. O nosso olhar tanto busca avidamente a novidade como encontra alento no conhecido.

Chego ao final da tarde ao bairro de Gemmayze, já em pleno centro da capital libanesa. Escolhi ficar aqui pois tem uma óptima localização e, pelas pesquisas realizadas, imaginei que fosse um quartier com alma. Pesou também na decisão ter sido das áreas que mais sofreu com a onda de choque motivada pela explosão anos antes no Porto de Beirute, logo ali ao lado.

A área parece um centro histórico viejo de qualquer capital latino-americana, mas com cachet parisiense. O meu alojamento tinha a palavra “hotel” no nome, mas na verdade opera como um hostel ou pensão. Instalei-me, suspeitando que se tivesse acesso ao telhado haveria de gostar do que iria encontrar. Não me enganaria.

Perguntei na recepção se era seguro. Responderam-me com uma certeza inabalável: “100% seguro! Aqui ninguém te fará mal, a qualquer hora do dia ou da noite”. Essa confirmação reiterou a confiança que trazia. Que começasse a aventura.

Gemmayze e Mar Mikhael são bairros com alma. Há vida a serpentear por entre edifícios destruídos. Comércios reinventam-se num bulício agradável de quem se recusa a vergar, perante uma crise de proporções bíblicas. Por conta do falhanço e colapso da economia, o Líbano tornou-se num estado cash-only, sem qualquer cartão. Curiosamente, o Euro não é uma moeda particularmente apreciada, aqui é o Dólar que impera (1 Dólar equivale a cerca de 100.000 Liras Libanesas). Todas as notas estão carregadas de zeros, e pouco ou nada valem, na verdade. Com efeito, um bom exemplo é o facto de os guardas na fronteira sírio-libanesa preferirem as “gratificações” em moeda síria (também ela muito enfraquecida) à moeda libanesa.

Deambulo neste primeiro anoitecer sem qualquer outro propósito que não o ambientar-me a Beirute. Uma zona portuária imensa destruída e aparentemente abandonada faz paredes meias com edifícios ao melhor estilo europeu severamente fustigados. Contrariando as adversidades, emergem vários cafés, galerias de arte e algum comércio, todos decorados com muito estilo numa mescla de retro com o exotismo próprio do Médio Oriente.

Continuo o meu passeio e torno a passar, agora a pé, pela Praça dos Mártires, palco de muitas revoltas e revoluções, e pela Mesquita Mohamed Al Amin. A imponência do edifício no exterior é consideravelmente suplantada pela sua beleza no interior. O decadente chique de Gemmayze vai dando lugar a edifícios mais modernos, lojas de luxo a relembrar países como o Dubai.

O manto da noite torna a cidade apetecível e a temperatura convida a jantar em uma qualquer esplanada. Opto por um recanto junto a umas escadarias, e fico estrategicamente a ver o mundo passar. A cozinha libanesa é um templo, fruto das muitas influências ao longo de séculos e da sua posição privilegiada. Não me lembro do que comi, mas lembro-me que estava divino. Há muita gente a sair à noite, grupos de amigos a socializar, animadamente. Denoto com surpresa que há muito mais mulheres a sair à noite do que homens. Não esperava que assim fosse.

No final da noite, passo num minimercado de bairro. Aprecio misturar-me no quotidiano das cidades e constatar que os hábitos mundanos e banais de qualquer cidadão são algo que nos une a todos. É por isso que nunca falho uma ida a supermercados e a mercados em geral.

No dia seguinte, deixo-me dormir até mais tarde e perco o muito reputado pequeno- almoço da pensão. Ainda não eram horas para almoço, mas sejamos honestos: estamos no Líbano e comemos quando quisermos. Ofertas não faltam. Não obstante, eu sabia exatamente onde teria de ir. Não muito longe dali estava o “Le Chef”, um daqueles restaurantes de bairro, com aquele cheirinho de tasco acolhedor que se encontra em qualquer localidade portuguesa. É um daqueles casos que, quando perguntamos a um local onde poderemos comer qualquer coisa, nos dizem que é ali que “temos” que ir. Aquando da explosão no porto, o ator Russell Crowe, um cliente ilustre, doou-lhes o dinheiro para a recuperação do espaço. Hoje, uma fotocópia de qualidade modesta de uma foto sorridente do actor e com uma singela legenda atesta o agradecimento: “Thank you Russell Crowe”. De ambiente despretensioso, muito afável, tinha já a maior parte das mesas ocupadas por quem supus ser a clientela habitual. Era o único estrangeiro ali. Fui atendido por um senhor que ostentava os melhores traços da hospitalidade. Aceitando algumas das suas sugestões, comi um rápido mas opíparo repasto e estava pronto para continuar a minha exploração.

Um pouco mais tarde, caminhava a pé perto da Place de L’Etoile (assim, tal como em Paris). Dada a proximidade dos ministérios e da sede do poder político do país, não estranhei o facto de estar ali na zona uma significativa presença militar. Também não estranhei que até as ruas que iam dar à praça stivessem todas barricadas. Talvez fosse alguma visita de algum chefe de estado. Não era, tal como viria a descobrir mais tarde, ainda nesse mesmo dia.

A exploração continuou. Pela cidade fora, há muita arte urbana para apreciar. Murais, estátuas e instalações artísticas modernas – muitas vezes feitas com destroços da explosão – evocam uma vontade de prosperidade para o Líbano e um desejo de paz e o fim dos vários conflitos que assolam o Médio Oriente. Dirijo-me à baía de Zaytuna e, debaixo de um sol intenso, vou saudar algo que raramente falha nas minhas viagens: o mar. A baía é muito bonita e por isso, já foi “tomada” por vários empreendimentos destinados às bolsas mais abastadas. Sigo, sempre junto à orla marítima, cruzando-me com pescadores, alheados na sua rotina e no infinito do Mediterrâneo. Passo pelo cenário vazio e desolador do porto, epicentro de uma violentíssima explosão em Agosto de 2020 que só veio piorar a debilidade do Líbano.

É altura para uma pausa retemperadora. A minha amiga Tania, nascida em Beirute, sugere que nos encontremos na sua pâtisserie de eleição. Altura para renovar a crença na gastronomia deste país. Está curiosíssima por saber das minhas primeiras impressões sobre a sua cidade e reforça cada elogio com orgulho. Sugere-me que vá ao mercado dos balcãs, mas obrigações profissionais ditam que a rota me leve justamente para o lado oposto. “Não faz mal”, disse-lhe. “Esta é a primeira vez em Beirute, mas já percebi que não será a última”. Ao perceber para onde iria, diz-me que tenho de ir de transportes. Nisto, dá-me o contacto telefónico de uma central de táxis e diz-me para que quando pedir um carro, mencionar o nome dela. Chama-me ela mesma o táxi, dizendo à operadora que eu era um amigo. Despedimo-nos com um até breve e sigo para a zona da Boulevard de Paris. De facto, o taxista perguntou-me se era amigo da madame Tania.

Tempo para um passeio na Corniche, a gloriosa promenade junto ao mar. Pausa para almoço, bem a meio da tarde, a contemplar o Mediterrâneo. No lento passeio de regresso ao hotel, passo pela Universidade Americana de Beirute, principescamente situada na primeira linha de costa. Centenas de pessoas aproveitam a Corniche, seja a passear como eu, a namorar, a conviver com amigos como muitos reformados, que trazem mesas de casa que colocam à beira-mar, convivendo animadamente entre amigos ou concentrados nos jogos de tabuleiro. As crianças, muitas, aproveitam para ir a banhos sob o cuidado dos avós. Muita gente aproveita para correr. Se Miami fosse na Europa, nos anos 70, seria assim.

No já longo caminho de regresso, volto a passar perto da Place de L’Etoile. As barricadas, fortemente guardadas, continuam a travar o acesso a ruas que continuam desertas. Porém, eis que – para lá das barricadas – vejo ao longe duas turistas que tiravam fotos a uma fachada de um edifício. Isso deteve-me e instigou fortemente a minha curiosidade. Motivado, fui falar com os soldados. Perguntei-lhes como estavam e se poderia passar. Eles olharam para mim e depois um para o outro e anuíram. Agradeci e achei por bem não perguntar mais nada, caso não fossem mudar de ideias. Passei a barricada, deixando os soldados para trás, e saí de uma rua barulhenta e cheia de gente para entrar num cenário surreal. Para mais, no momento em que as turistas terminam as fotos, saem pela barricada por onde eu entrei. E, nesse instante, não existia ali qualquer sinal de vida. Estava sozinho. Todas as lojas estavam fechadas. Os prédios não possuíam qualquer vestígio que estivessem habitados. Estavam cuidados e eram realmente belos, mas dir-se-ia que não havia ali vivalma há algum tempo. Rua após rua, o mesmo cenário pós-apocalíptico. O facto de ser a hora do lusco-fusco trouxe a este cenário uma ambiência ainda mais especial.

Subitamente, deparo-me com um pequeno café, com duas ou três mesas cá fora. Um homem lia o jornal, alheio ao seu redor. Não havia empregados nem clientela, pelo que assumi que fosse o dono. Saudei-o em francês. Ficou encantado que ali estivesse. Perguntou-me de onde era e o que fazia ali, e ficámos um pouco à conversa. Era, de facto, o dono. Intrigadíssimo, não resisto a perguntar o que se passava ali e qual a razão daqueles quarteirões estarem todos “selados” e apartados do resto da cidade. Ele sorriu e respondeu: “Medo… é por medo”.

A fim de evitar ajuntamentos de pessoas, o governo (ou o que resta dele) mandou isolar esta zona nevrálgica do resto da população, para que o povo não se manifestasse junto das instituições governamentais. Nitidamente, as lições de História que o Médio Oriente tem ensinado andam a ser negligenciadas por estas bandas. Devo ter conseguido passar por ser apenas uma pessoa. Perguntei ainda há quanto tempo durava esta situação. “Há demasiado”, foi a resposta que obtive.

Despedimo-nos com o habitual sorriso e votos de prosperidade. Continuei o meu passeio por uma zona fantasma só para mim, no centro de uma capital, até voltar à civilização, atravessando outra barricada e saudando um soldado que se mostrou espantado por me ver ali. Os ruídos, as luzes e o bulício estavam de volta.

À hora do jantar, oportunidade para novamente fortalecer a crença na gastronomia deste país. A conversa flui à mesa com o meu amigo Nanoo. Entre partilhas de histórias de viagens pelo mundo, vai-me confidenciando episódios sobre o Líbano que aguçam o meu interesse e fascínio pelo país e suas gentes.

Beirute é uma cidade vibrante. Sente-se vida, aqui. Tem uma alma, tem caos e desse caos emana uma ordem. É uma cidade de contrastes: moderna e antiga, chique e vagabunda, tradicional e moderna, alegre e sofrida. Beirute é despreocupadamente desmaquilhada e perpetuamente apaixonante.

Na manhã seguinte, era hora de partir. Tornaria em breve a Beirute mas, por ora, esta curta estada fora pródiga em sensações e descobertas. Movido de um ímpeto matinal, subo até ao decrépito telhado do velho edifício do meu hotel. Tal como imaginara, tinha uma vista sublime sobre a cidade. Sou presenteado com o sol a nascer por entre os prédios. Fico ali a aproveitar aquele momento e a absorver o que experienciara nos últimos dois dias. Quem tem o privilégio de viajar tem também o dever de desmistificar preconceitos.

Rasteirado mas não vergado, o povo do Líbano subsiste com a excelência própria de uma grande nação. Aqui aprende-se que a nobreza de um lugar tem muito mais que ver com a resiliência do seu povo perante as adversidades do que com a espetacularidade e magnificência de um qualquer monumento. O exemplo vem de baixo. Citando George Orwell, “se há esperança, ela está nas proles”.

Há realmente um brilho no ar, um aroma a aventura, um pulsar que se sente.

2 Comentários

  1. André 21 Maio 2025 (08:29)

    Excelente texto

    Responder a André

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