Despedimo-nos com o habitual sorriso e votos de prosperidade. Continuei o meu passeio por uma zona fantasma só para mim, no centro de uma capital, até voltar à civilização, atravessando outra barricada e saudando um soldado que se mostrou espantado por me ver ali. Os ruídos, as luzes e o bulício estavam de volta.
À hora do jantar, oportunidade para novamente fortalecer a crença na gastronomia deste país. A conversa flui à mesa com o meu amigo Nanoo. Entre partilhas de histórias de viagens pelo mundo, vai-me confidenciando episódios sobre o Líbano que aguçam o meu interesse e fascínio pelo país e suas gentes.
Beirute é uma cidade vibrante. Sente-se vida, aqui. Tem uma alma, tem caos e desse caos emana uma ordem. É uma cidade de contrastes: moderna e antiga, chique e vagabunda, tradicional e moderna, alegre e sofrida. Beirute é despreocupadamente desmaquilhada e perpetuamente apaixonante.
Na manhã seguinte, era hora de partir. Tornaria em breve a Beirute mas, por ora, esta curta estada fora pródiga em sensações e descobertas. Movido de um ímpeto matinal, subo até ao decrépito telhado do velho edifício do meu hotel. Tal como imaginara, tinha uma vista sublime sobre a cidade. Sou presenteado com o sol a nascer por entre os prédios. Fico ali a aproveitar aquele momento e a absorver o que experienciara nos últimos dois dias. Quem tem o privilégio de viajar tem também o dever de desmistificar preconceitos.
Rasteirado mas não vergado, o povo do Líbano subsiste com a excelência própria de uma grande nação. Aqui aprende-se que a nobreza de um lugar tem muito mais que ver com a resiliência do seu povo perante as adversidades do que com a espetacularidade e magnificência de um qualquer monumento. O exemplo vem de baixo. Citando George Orwell, “se há esperança, ela está nas proles”.
Há realmente um brilho no ar, um aroma a aventura, um pulsar que se sente.
Excelente texto
Olá, André. Obrigado pelo teu feedback! Um texto cunhado pelo cuidado a que o Ricardo já nos habituou. Um abraço