Dar o Mundo

Cabo Verde era, de longe, aquele destino que chamava pelos meus sentidos. Caímos sempre na tentação de dizer que não somos preconceituosos, mas para quem trabalha em viagens culturais e de aventura e gosta de desbravar o mundo menos “instagrâmico”, nomes como o de Cabo Verde, vêm logo associados a turismo de massas, resorts com pacotes de tudo incluído, barrigas para o ar a queimar ao sol, trolleys a rolar com fartura e uma mensagem, no regresso, que repete sempre “Fui a Cabo Verde e adorei”. Mas os preconceitos existem para ser quebrados.

Da mesma forma que me perguntam tantas vezes: vais àqueles países (porque o que não conhecemos, tem sempre o nome de Aqueles, mesmo que saibamos zero sobre eles) e não tens medo? Bem, não, não tenho medo. Considero-me uma pessoa que arrisca nas viagens, mas não sou estúpido. Só me meto mesmo em lugares onde há perigo, se não tiver amor à vida (e tenho!). Da mesma forma, só se mete em resorts, tudo incluído e barrigas ao sol, quem quer…mas há tanto, mas tanto para encontrar e descobrir em lugares como “Aqueles” países, geralmente associados a turismo de massas. E Cabo Verde, é um deles. Podemos facilmente fugir do Sal ou da Boavista, duas ilhas que nada (ou nadica de nada) têm para mostrar a quem quer mais que pés na areia, vento e água morna para uns mergulhos.

Depois, temos outra questão que é viajar em família. Depois de uma viagem de bicicleta em França, quando o Sebastião tinha 4 meses; do Expresso do Oriente, entre Viena e Istambul, quando tinha 1 ano; de uma semana na Terceira, a desbravar a ilha nas calmas, quando o Sebastião tinha quase 2 anos e a Amélia tinha 3 meses; de uma roadtrip na Irlanda, 7 meses depois. De em 2024 termos andado só por terras lusas, entre campismos e autocaravanas; achámos que Cabo Verde seria um bom destino, agora que o Tião tem quase 4 anos e a Amélia, 2. E assim foi. Porém, dentro do controlo que gostamos de ter neste momento, achamos por bem dar-lhe sempre uma dose de adrenalina e praia, apesar de a querermos fazer (também), não estava nas prioridades. O que nos interessa é a parte cultural e decidimos assim percorrer, em 3 semanas, 4 ilhas: Sal, São Nicolau, São Vicente e Santo Antão.

“Viemos para ver, para descobrir, para pensar, para decidir, mas, sobretudo, para darmos a ambas as nossas crias, a possibilidade de sentir as pessoas.”

Aproveitando a Black Friday (quem nunca), voámos para o Sal onde, além dos voos mais baratos, o mais importante era abraçar um amigo que já não via desde 2005, quando ainda trabalhava nos palcos. Reduzimos a nossa bagagem a 3 malas de cabine e a um atrelado de bicicleta (que também se transforma em trolley para as crianças) e embarcámos no dia 9 de Janeiro, com a ideia de chegar na madrugada de 10. Hoje, já em casa, olhamos para trás e vemos que a nossa aventura teve um desfecho com tudo de bom.

Quem viaja com crianças, sabe o quanto cansa viajar. Quando ainda dependem muito de nós, mais cansaço ainda. A famosa frase – não vamos de férias, vamos apenas mudar de casa por uns dias – não pode ser mais acertada. Quem viaja com crianças para um resort (eu que nunca o fiz, por isso…presumo) deve ter a coisa mais ou menos controlada: quarto, refeições incluídas (queres comer, comes; queres desperdiçar, desperdiças; queres escolher, escolhe), piscina ali ao lado, alguém que entretém a miudagem na kids zone, enquanto me estico na espreguiçadeira, e praia privada ali à mão; Alguém que queira cansar-se um pouco mais, escolhe 4 ilhas, atravessa-as todas de ferry – mesmo que de madrugada alguns deles e a demorar 8 horas de viagem – percorre todas de carro ou Coletivo (um tipo de táxi partilhado aqui das ilhas, que parte…quando tiver gente suficiente), caminha com as crianças ao colo e às cavalitas, quilómetros sem fim, prepara refeições para levar para o dia e para a noite, pois pode não haver o que possamos comer (somos todos vegetarianos), organiza mochila para o dia a pensar em tudo o que pode acontecer e quando precisa, ao abrir percebe que afinal, se esqueceu de algo, fica parado no meio duma povoação enquanto uma das crias faz a sesta num banco de rua ou em duas cadeiras de esplanada, separa as crianças das brigas do cansaço, tenta lidar com as birras características da idade, muda de casa para outra casa e para outra casa e ainda para outra, tira tudo dos sacos, organiza o frigorífico, arruma a tralha que as crias já conseguiram atirar para o chão e repara que ainda anda com uma mochila às costas e depois de tudo, quando só apetece estender a “barriga ao sol”, temos ainda de dar banho a toda a gente, contar histórias antes de dormir e umas tantas músicas com um repertório que vai do “Cara a Cara” do Castello Branco, à “Ó Rama, ó que linda Rama” do Vitorino, passando pelo “Dunas” dos GNR. Ufa, que férias!

E no meio disto tudo, um Cabo Verde deslumbrante, puro, sincero, humilde e fascinante. Não encontro nada de mau nesta nossa viagem. O país – e o preconceito é o que é – é uma lufada de ar fresco, num momento em que nós, enquanto família, estamos numa fase de mudança de alguns projetos de vida. Viemos para ver, para descobrir, para pensar, para decidir, mas, sobretudo, para darmos a ambas as nossas crias, a possibilidade de sentir as pessoas, os locais, os transportes, o quebrar das ondas, a terra, a areia, a espera, o desespero, a frustração de não terem o que querem sempre “à mão” e que é tão importante sentir, o desenrascar, o conhecer o outro e a outra, o ouvir um dialeto diferente, olhar para sorrisos diferentes, realidades diferentes. E se a Amélia ainda é muito pequenina, o Sebastião sentiu-o bem. O cansaço de ambos, no final do dia, demonstra bem o que lhes chegou ao cérebro.

Não pretendo que a mensagem seja em tom de roteiro – para isso, existe a Landescape e as viagens personalizadas que desenhamos – mas em tom de memória. Do Sal, fica o abraço ao amigo Fortes. Uma ilha sem personalidade, seca (que foi onde encontrei a graça maior), com mais escaldões por metro quadrado que qualquer outro local por aqui, com os famosos packs tudo incluído e com 3 ou 4 sítios que se dizem A Ver…mas que têm pouca ou nenhuma piada.

São Nicolau é deslumbrante. Talvez a ilha mais pobre de todas, com um povo genuíno e simpático, uma Ribeira Brava que nos apaixonou e um Juncalinho que nos deu vontade de ficar ali a viver, por uns tempos. Areia negra, estradas ziguezagueando uma paisagem imponente que se precipita sobre o mar. As ondas que batem com força, as mercearias: do Silva, da Leninha, da Almeida, da Graça e a Boutique Fashion, a Loukura, entre outras. Dali, um mar tempestuoso e a puxar o enjoo de muitas pessoas, chegámos a São Vicente, onde a amiga Filipa vive há 11 anos. Mais um abraço! Foi talvez a ilha que nos fizemos menos à estrada.

Apeteceu-nos só estar e existir. Com a Filipa e o Ivan, descobrimos Calhau e pessoas que se preocupam com o ambiente. “Batizámos” tartarugas bebé, fizemos festas a cães de rua, demos “cafunhos” (mergulhos, para as pessoas de Ovar) num mar agitado, visitámos uma baia que é das Gatas. Do Mindelo levo um misto de sentimentos. Apesar de já não ser bem bem o pulsar de Cabo Verde, era o único local onde com certeza vivia (quem sabe). Tem alma, tem mar, tem restaurantes divinais, mercados, uma arquitetura bonita, dança entre os ritmos africanos e ocidentalizados. Tem pasteis de nata, mas também tem cachupa. Tem música, cultura, tem vida. E tem Santo Antão mesmo em frente, aquela que foi a nossa ilha favorita (lugar comum), a uns 50 minutos de barco. Um cocktail de Açores, Machu Picchu e Lanzarote (para não ir mais longe). A ilha do trekking, das montanhas abruptas, das paisagens de pasmar, da boa comida, da calma, das estradas íngremes, da abundância de água, a ilha que vê nascer tudo da terra.

E foi assim Cabo Verde. A viagem, que tinha tudo para dar certo, deu mesmo. As crianças saem daqui felizes e com o coração cheio de saudades dos avós, de quem têm falado muito, temos a certeza de que mortos por lhes contarem quase tudo. Nós, saímos de alma cheia, com um cansaço tremendo, com a paciência feita em cacos, mas com um sorriso de orelha a orelha, certos de que dar mundo aos nossos bichinhos, é o maior tesouro que podemos deixar.

6 Comentários

  1. rosa alDina valente 6 Fevereiro 2025 (14:40)

    Então não é que este rapaz, pai, menino, guia, empresário, nos põe a sonhar?!!!
    O teu olhar curioso, sensível, muito poético, levou-me para um Cabo Verde que vou querer conhecer!
    Um abraço, Rafael! [um abraço para partilhares com a tua tribo]

    Responder a rosa alDina valente
    • Rafael Polónia Fundador, Líder de Viagem 6 Fevereiro 2025 (16:27)

      Obrigado, Rosa. De facto, não sendo poeta – nem tendo habilidade para o ser – quando toca em viagens e família, as coisas ficam mais lúcidas à escrita. Beijinho

      Responder a Rafael Polónia
  2. Luisa Mota 6 Fevereiro 2025 (16:07)
  3. Carla 6 Fevereiro 2025 (17:13)

    ❤️❤️❤️❤️deixas-me sem palavras Rafo😋

    Responder a Carla
  4. Ana 16 Fevereiro 2025 (20:09)

    Fantástico! Desbravar estas ilhas há muito conhecidas nos pacotes turísticos com outro olhar e com todos os sentidos à flor da pele, a descobrir caminhos novos, cheiros e a conhecer pessoas ao sabor dos dias. Dias em cheio em família, os pequenos certamente irão ter na memória esta viagem onde tanto exploraram e fizeram, além de estarem apenas numa piscina dentro do resort. Imprevisibilidade diária 🙂 gostei de ler bastante este relato de ‘exploração’ e de descoberta (chamar viagem a isto seria pouco, pois as memórias devem ser tantas que não cabem no convencional). Espero um dia fazer viagens fora da caixa em família 🙌

    Responder a Ana

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