Há gente que fica na história da gente

Nesta coleção de 50 experiências de viagem únicas e fascinantes de todo o mundo, trazemos hoje o relato de Rosa Aldina, vizinha do Lugar . Landescape, em Ovar, que aos 67 anos continua apaixonada pelo Mundo e pela natureza. Neste relato fala-nos da sua passagem pela Guatemala, na companhia do líder de viagens Miguel Neves.

Lembramos que esta colecção não é uma bucket list com o que deves ou não fazer antes de morrer, nem um ranking dos países que não podes perder. Esta é antes uma coleção de histórias de viagem daqueles que escolheram partir à descoberta do Mundo com a Landescape, de coração e braços abertos para aceitar a diferença. As experiências vividas na primeira pessoa pelos nossos viajantes, intrépidos aventureiros que se deixam guiar pela emoção de conhecer novas culturas e novos sabores de cada gastronomia, pessoas curiosas em conhecer os locais e as comunidades que habitam neste grande e maravilhoso planeta.

“O dia acordou muito cedo, esperava-nos uma grande aventura na selva profunda da Guatemala: a expedição El Camino del Jaguar. As expectativas eram grandes! Uma mulher como eu, amante da natureza e de uma boa caminhada, estava entusiasmada, mas algo receosa. O desconhecido desafia, mas também apavora.”

“Antes de iniciar a caminhada de cerca de 16 Km, talvez menos- o estado do trilho iria determinar a distância precisa – conhecemos os 3 guias que connosco iriam viver esta aventura. Homens indígenas, descendentes Maia, conhecedores exímios da realidade envolvente. Entre eles, o Joel. Homem de média estatura, carnes magras, pele escura, rosto vincado e fechado, onde sobressaía um bigode que lhe atribuía alguma singularidade. Singularidade reforçada pelas vestes que usava – chapéu de aba larga, camisa entreaberta, calça clara, lenço vermelho amarrado ao pescoço. De catana na mão, olhar atento e conhecedor, o Joel assumiu a dianteira do grupo. Vai desbravando partes do trilho que a densa vegetação, desenfreada, tende a cobrir. Trilhos sinuosos, lamacentos rasgados na floresta exuberante. Nas clareiras, os raios de sol juntavam-se a nós e acrescentavam mais brilho ao verde que nos envolvia. Os sons misturavam-se numa sinfonia natural: o chapinhar da nossa passada, as pequenas conversas de grupo, o canto dos pássaros, os sons estranhos indecifráveis da natureza … Protegida pela Madre Naturaleza, apurei os meus sentidos e entreguei-me por inteiro ao desafio.”

“Na pausa para o almoço, que os três guias carregaram – sandes e melancia- reparei no recato do Joel, perto de nós, mas mantendo um certo distanciamento. Aproximei-me e verifiquei que comia rodelas de beringela. Impressionada, reparei nas suas mãos. Dedos compridos, flexíveis: “garras ágeis com vida própria”. Ofereci-lhe os frutos secos que levava comigo e recebi de volta uma fatia de beringela. E que bem me soube!”

“Retomámos a caminhada! A mochila, a lama, o suor, o cansaço, tudo, tudo pesava. Mas eram ainda muitos os sorrisos nos nossos rostos. Recordo que, nessa altura, talvez o que mais incomodava eram as picadas dos insetos. O Joel tinha distribuído por alguns de nós ramos de uma determinada planta que nos ajudou a afastar a “bicharada”. No meu caso, resultou! Não me chatearam muito!”

“O final da tarde aproximava-se. Era preciso chegar ao acampamento antes do anoitecer. Os guias comentavam: “A noite torna a floresta mais perigosa”. Era importante não esquecer que era ali, o habitat natural do jaguar! Jaguar que felizmente não nos visitou! Preocupados, avançávamos no terreno e, milagrosamente ou não, fomos socorridos por 3 pick-ups da equipa que nos esperava no acampamento. Viveram-se então, momentos hilariantes! Algumas pick-ups ficaram atoladas e foi preciso rebocá-las. Ouviram-se gritos, gargalhadas, palmas, incentivos – receios camuflados. Mas a habilidade daqueles homens, a perícia e a experiência em lidar com aquelas adversidades, impôs-se! Finalmente, chegámos animados ao acampamento de Nakum.”

“O acampamento estava localizado numa clareira. De um lado, 8 chuveiros ao ar livre, improvisados, que iríamos partilhar. Do outro, uma cabana com vários colchões cobertos por redes mosquiteiras, onde iríamos pernoitar. E, ainda, uma outra cabana onde estava a ser confecionada a comida para todos. Tudo era simples e rudimentar. Depois do banho possível, mas sempre reparador, finalmente o momento da janta. Não sem antes ter que afastar delicadamente, com um ancinho, uma tarântula que se aproximava. O pavor de que pudesse entrar no nosso dormitório, durante a noite, deu-me a coragem necessária!”

“Na entrada da cabana, onde iríamos jantar, vejo o Joel. Um Joel renovado, camisa lavada, cigarro na mão, sorriso no rosto! O espaço era simples, rústico, despido de ornamentos, mas muito acolhedor. Ainda havia vestígios da fogueira e na grelha do fogo, tachos com comida. Nas bancadas improvisadas, utensílios mínimos necessários para a nosso repasto. Sentados à volta da mesa, num ambiente descontraído e alegre, o jantar de festa aconteceu. A conversa foi-se entrelaçando com gargalhadas, comentários e sorrisos. Já no final, tentei conhecer um pouco mais aquela gente que de forma simples e calorosa nos recebia e acompanhava.”

“A conversa fluiu de forma natural e harmoniosa. Fizeram-se confidências, relatos de uma vida sofrida. O Joel falou-me do tempo em que viveu fora da Guatemala e da necessidade que sentiu em voltar. Falou-me do tempo em que trabalhou para os gringos, ali naquela selva, na extração da resina cremosa da Sapotilha para a produção de chicletes. Da decadência desses tempos. Falou-me do tempo solitário que vive na selva. Designou-se como pai solteiro. “Estranho! Só conhecia a expressão “mãe solteira”, nunca, “pai solteiro”. Falou-me do seu amor pela natureza, da necessidade de continuar a viver na selva e a divulgar a cultura maia. Um misto de solidão e orgulho! Eu falei-lhe do meu amor pela liberdade. Do gosto que tenho pelo canto, pela música, pela dança. Na sequência, desafiei-os para o canto. E foi a cantar que a noite terminou, entre sorrisos e emoções. Depois do canto colectivo improvisado da “Grândola Vila Morena”, cantei-lhe um poema de António Pina, uma metáfora sobre a liberdade. O Joel respondeu, cantando versos da sua autoria que falavam da selva, do seu mundo. Por fim, uma canção de homenagem às mulheres. E foi bonito ouvi-lo cantar “Mujeres tan divinas No quiero otro camino que no adorarlas”. Uma noite intensa, especial, única!”

“Embalada com os sons dos animais da floresta, despida do meu lado civilizacional, adormeci com um sorriso e muita vontade de viver o dia seguinte!”

“Acordámos bem cedo, antes ainda do nascer do sol, para conhecer Nakum considerada a maior acrópole palaciana Maia. Durante a caminhada, os guias iam identificando essas ruínas, esses templos que emergiam na selva como pequenas montanhas. Foram muitas as informações sobre a cultura Maia, os seus valores, a sua riqueza, sobre a utilidade de certas plantas a nível medicinal e alimentar… Uma partilha de conhecimento genuína! Depois de ver o nascer do sol, lá bem no alto entre as ruínas, voltámos para o acampamento. Já com o estômago forrado, pegámos nas mochilas e iniciámos uma nova caminhada de 16 km até Yaxha.”

“O trilho era agora menos sinuoso. Houve tempo para ouvir outras histórias da selva, da vida, outros desabafos. Ouvir e observar um pouco melhor a vida animal que existia ao nosso redor. Sentir na pele o contacto suave da tarântula medonha, ouvir o grito das famílias do macaco-aranha, tentar descobrir o pássaro, símbolo da Guatemala: o quetzal. Enfim! No final, já em Yaxha, as últimas fotos, as últimas palavras de agradecimento, os últimos abraços sentidos. E no abraço ao Joel, a certeza de que há Gente que fica na história da gente.”

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