O deserto em flor

Nesta coleção de 50 experiências de viagem únicas e fascinantes de todo o mundo, trazemos hoje o relato de Inês Guerreiro, tradutora e revisora, mas também instrutora de Hatha Yoga, em Lisboa. A Inês chegou até nós por sugestão de amigos, mas, hoje, orgulhamo-nos de dizer que é parte da nossa família. Esta família imensa de intrépidos viajantes, sedentos de aventura e conhecimento, que parte à descoberta sem preconceitos e de braços abertos. A lista de países que conheceu na nossa companhia é já extensa e, do alto dos seus 54 anos, não tem dúvidas quanto às próximas paragens que quer fazer com a equipa de líderes da Landescape: Nepal, Guatemala e Jordânia.

Lembramos que esta colecção não é uma bucket list com o que deves ou não fazer antes de morrer, nem um ranking dos países que não podes perder. Esta é antes uma coleção de histórias de viagem daqueles que escolheram partir à descoberta do Mundo com a Landescape, de coração e braços abertos para aceitar a diferença. As experiências vividas na primeira pessoa pelos nossos viajantes, intrépidos aventureiros que se deixam guiar pela emoção de conhecer novas culturas e novos sabores de cada gastronomia, pessoas curiosas em conhecer os locais e as comunidades que habitam neste grande e maravilhoso planeta.

“Como em casa de todos os avós, em casa dos meus havia uma enciclopédia cheia de fotografias com diferentes pormenores de todo o mundo. Passei muitas horas da minha infância sentada no chão do escritório, a passar as suas páginas. Recordo representações realistas do sistema solar, imagens de nebulosas e enxames de estrelas contra um espaço sideral hipernegro, fotografias panorâmicas do Monte Saint Michel com a maré cheia e vazia, listagens de pedras preciosas, esquemas de funcionamento de máquinas industriais e muitas minudências capazes de despertar o deslumbramento de qualquer criança.”

“Uma delas persegue-me até hoje: o deserto em flor, depois de um episódio raro de precipitação. Abria sempre essa página, expectante, respiração em suspenso, numa eterna surpresa. A habitual extensão de areia, a estender-se ao longe, multiplicada em dunas de diferentes tonalidades, o mesmo solo árido e gretado, mas pontilhado por manchas de cor e textura dispersas, flores e pequenos caules com folhas subitamente acordadas ao seu torpor.

Quase cinquenta anos depois, entendo melhor o deslumbramento dessas fotografias.

O deserto em flor é a metáfora do contentamento interior. Uma reserva de pequenas sementes de alegria potencial que, com o alimento certo, florescem em instantes de felicidade plena. Podemos construir aos poucos esse jardim exótico e inusitado, camada por camada, até que, quando menos esperamos, uma chuva inesperada revela todo o seu esplendor.

O meu regresso às viagens é, para mim, colher essa plenitude momentânea, fruto de anos de tempestades vertiginosas e de aridez acumulada.”

“Com a Landescape encontrei um ambiente de conforto para essa experiência, porque viajo sozinha, mas gosto de partilhar a viagem. Preciso do meu espaço interior, mas os abraços e as conversas e as gargalhadas fazem toda a minha alegria.

E, na verdade, não sou esquisita, gosto de tudo o que me dão. De me sentar na grande duna cor-de-rosa de Merzouga a escutar o vento percorrer o nada, de regatear bagatelas no bazar, de dar prioridade a mulas, cabras ou alpacas. De um ritual de reverência aos deuses da montanha, nos Andes, de comprar bugigangas ainda a sair das mãos dos seus fabricantes, da multidão colorida e seus os altares, nos ghats frente ao Ganges, da vaca de cinco patas em Pushkar, do elefante no meio da rua, enfeitado para o Divali. De não dar de comer aos monges de madrugada em Luang Prabang porque já levam que chegue nas cestas, de suar um rim em cada subida para ver pores e nasceres do sol, em português e estrangeiro, de ver a dança dos condores, de dançar com as vietnamitas velhinhas mas enxutas. De comprar sapatos por medida em Hoi An, de calcorrear o sopé de Ausangate com o coração nos olhos e as entranhas nos pulmões, de fazer um ioga amalucado em Varanasi e de seguir para os crematórios, de não tomar banho onde devo e de o tomar onde não poderia, se tivesse juízo. De dançar para aquecer o corpo numa aldeia remota, de vestir as saias locais e de passar a gruta com a canoa às arrecuas depois de abalroar o grupo inteiro, de todas as purgas e de todas as intoxicações alimentares, que não tive nenhuma, saravá! Do cheiro a incenso e urina, da música e do pho e das chamuças e do picante todo. 

Estas são as sementes germinadas no meu deserto em flor. O contentamento interior e profundo com o tudo e o nada, o imenso e o imensamente pequeno e simples, a minha versão de santosha. E a certeza de que permaneço fiel às promessas do meu caminho.

Obrigada, meus amigos, por estarem nele comigo!”

2 Comentários

  1. Elisa Batista 27 Maio 2025 (18:49)

    Que maravilha, Inês 💖
    Obrigada pela tua generosa partilhar 🙏☀️

    Responder a Elisa Batista

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