Não somos contra o turismo, mas estamos certos de que ele tem de ser melhorado!

Como sabes, em vários pontos do Mundo tem havido protestos e debates sobre o impacto do turismo massificado na qualidade de vida das comunidades locais e também na degradação do meio ambiente. Falo de várias cidades europeias como Veneza, Barcelona e, em última instância, podemos olhar para o nosso próprio país onde cidades como o Porto e Lisboa se têm visto a braços com a especulação imobiliária que resulta no aumento generalizado do preço da habitação e consequentemente na gentrificação e no aumento do número de pessoas em situação de sem-abrigo. Mas falo também de locais como a ilha de Bali onde os campos de arroz têm sido devastados para dar lugar a unidades hoteleiras e restaurantes, resultando numa perda de produção alimentar para a população e num constrangimento brutal das suas economias. Ou na Cidade do México que assistiu recentemente a protestos que terminaram em violência exatamente pela mesma razão. Deixo aqui alguns links para considerares, mas uma breve pesquisa pelo Google dar-te-á muitos outros exemplos:

Isso significa que o turismo de massas, assim como o excesso de turismo de uma forma generalizada, representam um enorme problema, que diria se pode balizar em quatro grandes questões:
  • Aumento astronómico do preço das rendas e do preço dos imóveis para venda;
  • Desrespeito pela cultura local, nas suas mais variadas facetas: religião, gastronomia, dialetos, costumes e tradições, entre outros;
  • Degradação do meio ambiente que, inevitavelmente, se traduz numa perda de qualidade de vida para as populações locais e, nalguns casos mais extremos, na perda de fontes de alimento. Exemplo: na Jamaica, quase todas as praias estão concessionadas o que fez com que pescadores mais tradicionais perdessem o acesso ao mar e, por consequência, rendimentos e alimento;
  • Perda de identidade cultural que já se manifesta numa globalização desmedida onde tudo é igual em todo o lado.
A solução, no entanto, não está na redução do turismo mas, sim, na criação de um turismo melhor. Porque quando o turismo é bem feito, promove:
  • O pagamento de salários justos e a criação de emprego para as comunidades locais;
  • A proteção da cultura e da natureza, através de projetos que promovam o turismo de natureza e a integração de visitantes naquilo que são os hábitos da comunidade local;
  • O fortalecimento dessas mesmas comunidades e a união entre as pessoas num tempo da História em que a divisão é cada vez mais gritante.

O turismo tem um potencial infinito para criar mudanças positivas. E há bons exemplos disso espalhados pelo mundo. Deixo-te alguns para consideração.

COSTA RICA

O turismo ecológico é uma das maiores fontes de receita do país. As receitas provenientes do turismo ajudaram a financiar áreas protegidas, a criar emprego e a desenvolver infra-estruturas básicas como escolas, estradas e centros de saúde. Hoje, mais de 25% do território está protegido, o que preserva o meio-ambiente e gera emprego qualificado para guias, trabalhadores de alojamentos ecológicos, entre outros.

 

BILBAU, ESPANHA

A transformação da cidade com a construção do Museu Guggenheim atraiu milhões de visitantes, impulsionando o sector hoteleiro, a restauração e o comércio. Isso levou a uma diminuição do desemprego, a uma revalorização do centro urbana, a melhorias nos transportes públicos e mais investimento em cultura e serviços públicos.

 

CIDADE DO CABO, ÁFRICA DO SUL

Projetos de turismo comunitário incentivaram visitas a bairros menos favorecidos como as townships, criando oportunidades para guias locais, artesãos e pequenas empresas. Isso gerou uma maior fonte de rendimento para as famílias locais, uma valorização cultural e social, mas também uma maior consciencialização sobre as desigualdades e tradições locais.

Então o que podemos fazer para melhorar o turismo?

1. Precisamos ir além do turismo de massas. Este modelo, que se aplica por exemplo aos navios de cruzeiro e aos grandes grupos turísticos compostos por 40 ou 50 pessoas, foi concebido para beneficiar os viajantes, e não os anfitriões locais. Mas o turismo só prospera quando o valor é partilhado. Na Landescape, defendemos as viagens em pequenos grupos. As nossas viagens têm, no máximo, 12 viajantes por grupo, o que nos permite comer em pequenos restaurantes, ficar alojados em hotéis familiares, utilizar transportes públicos para as nossas deslocações ou, simplesmente, fazer uma aula de culinária familiar.

2. Aplicar regulamentação que priorize as pessoas e os locais em detrimento do lucro. Regulamentações mais rigorosas — como temos visto acontecer com vários governos a limitar ou, até mesmo, proibir os alugueres de curta duração em determinados destinos — podem ajudar o turismo a desenvolver-se de uma forma que apoie as comunidades e não as obrigue a serem deslocadas.

Exemplo: Em Machu Picchu há uma limitação diária do número de visitantes para garantir que o local seja preservado.

3. Trabalhar para melhorar o comportamento turístico. Barcelona, por exemplo, investiu numa campanha (com ênfase no uso responsável da água, minimização dos níveis de ruído e lixo) para enfatizar as regras da cidade, concebidas para que tanto residentes como visitantes possam coexistir. Para a Landescape, os anfitriões locais são essenciais. Contratar guias locais ajuda os viajantes a navegar pelas nuances culturais e aprofunda a experiência de viagem, ajudando a eliminar qualquer mentalidade de “nós contra eles”. Trabalhar com guias indígenas, promover a formação de elementos da comunidade para atuarem como anfitriões nos locais que visitamos são bons exemplos disso.

4. O dinheiro do turismo deve beneficiar a população local, e não os monopólios internacionais. Seja através da aplicação de impostos turísticos, da limitação da propriedade estrangeira ou da criação de subsídios para a propriedade de empresas locais, existem muitas alavancas económicas para ajudar a construir uma forte indústria e um destino turístico, tendo por base a propriedade local.

4. O dinheiro do turismo deve beneficiar a população local, e não os monopólios internacionais. Seja através da aplicação de impostos turísticos, da limitação da propriedade estrangeira ou da criação de subsídios para a propriedade de empresas locais, existem muitas alavancas económicas para ajudar a construir uma forte indústria e um destino turístico, tendo por base a propriedade local.

5. Para que o turismo sobreviva e prospere, é necessário que beneficie a maioria, e não a minoria. Vamos trabalhar juntos para construir melhores modelos de turismo. Vamos eliminar as “bucket list” e, em vez disso, trabalhar em prol de um intercâmbio e interação cultural genuínos e respeitosos.

Há um caminho melhor a seguir!

Mas depende de todos nós e as nossas escolhas no momento de sermos turistas devem ser responsáveis e ponderadas, em prol de um Mundo melhor e mais justo para todos. Os que visitam e os que são visitados.

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