Taprobana: que história partilhamos com o Sri Lanka?

O Sri Lanka foi durante longos anos um território de disputa colonial. A sua localização estratégica e a riqueza que albergava motivaram a cobiça de vários impérios europeus em expansão. Portugal não foi exceção. A presença lusa no Sri Lanka tem motivado inúmeros artigos científicos que se debruçam tanto nas tentativas de colonização sui generis deste território, como na complexa rede comercial em torno da canela. A “Taprobana” de Camões, como é referida n’Os Lusíadas, tem sido investigada a fundo por Hugo Cardoso, da Universidade de Lisboa, docente responsável pelo projeto “Documentation of Sri Lanka Portuguese”. Entre os seus principais objetivos, encontramos a criação de um perfil da língua portuguesa nesta zona da Ásia e um levantamento da música e das danças portuguesas presentes na cultura do país.

Este pesado legado colonial ainda se reflete nos apelidos da população do Sri Lanka. Perera, Fernandes, Sousa, Silva ou Fonseca são alguns dos nomes mais comuns entre os “burghers”, uma comunidade de ascendência portuguesa que ainda preserva um crioulo de raiz lusa e que se concentra, sobretudo, nas cidades de Batticaloa e Trincomalee, na Província Oriental. A Baila, uma música popular desta região, é uma das marcas da presença portuguesa no Sri Lanka.

O Forte de Galle, erigido pelos portugueses em 1588 e que terás oportunidade de visitar na viagem da Landescape ao Sri Lanka, é uma cidade fortificada na baía de Galle, na costa sudoeste do país, e resulta de uma combinação de vários estilos arquitetónicos europeus e sul-asiáticos. Esta mistura heterogénea valeu-lhe a classificação pela UNESCO como Património Mundial em 1988.

A presença colonial britânica determinou que o país se chamasse Ceilão durante vários séculos. Esta nomenclatura acabaria por se eternizar no produto exportado pelo país com maior reconhecimento a nível internacional. No mercado ocidental, encontramos, por norma, dois tipos de canela: a do Ceilão (de melhor qualidade) e a cássia. A primeira, produzida quase em exclusivo no Sri Lanka, é considerada a verdadeira canela, atravessando um complexo processo de produção que eleva o seu preço. Nos campos de cultivo, as sementes são plantadas em sacos de germinação. Um ano mais tarde, são cultivados os rebentos, e a colheita só se inicia ao fim de quatro anos.

A canela é consumida há pelo menos três mil anos antes de Cristo. O mundo antigo considerava-a uma especiaria de luxo. Para os antigos egípcios, a canela era um símbolo de estatuto, usada também em perfumes. Já os gregos consideravam-na um remédio. Historicamente, o descasque da canela era reservado à comunidade Salagama, uma casta composta originalmente por tecelões. Numa altura em que a canela crescia em ambiente selvagem, a população passava muito tempo nas selvas para a recolher e a entregar ao rei. Quando os colonizadores portugueses chegaram ao Sri Lanka, tomaram partido destas propriedades fundiárias; um decreto de Goa (à época a Índia portuguesa) declarou que a comunidade Salagama descendia de escravos capturados, encontrando assim um enquadramento legal para explorar desenfreadamente esta população; sob controlo português, iniciava-se a recolha da canela tão cedo quanto aos 12 anos de idade. À chegada dos holandeses ao Sri Lanka, e depois destes expulsarem os portugueses, a comunidade de descascadores tinha sido brutalmente reduzida, fruto das inúmeras lutas contra invasores coloniais e diversas doenças contraídas.

Se é quase impossível contornar a história comercial da canela e dissociá-la do passado do país – e, em particular, da presença portuguesa -, é igualmente verdade que a produção de canela continua a ocupar um papel central na economia do Sri Lanka. Depois de várias reformas e etapas de industrialização, ainda há comunidades que procuram preservar a memória e o legado destes povos descascadores. O descasque geracional, transmitido ao longo do tempo, consiste numa técnica artesanal de recolha e tratamento da canela que está intimamente dependente do setor do turismo sustentável do Sri Lanka. Visitando comunidades de portas abertas para quem as visita, turistas de todo o mundo testemunham um ofício milenar e recebem por cortesia uma pequena infusão de canela em chá preto; em compensação, adquirem junto destes produtores pequenos magotes de canela e garrafas de óleo de canela. 

Numa altura em que a produção nacional de canela enfrenta vários desafios – com a difusão e comercialização de cássia sem qualquer distinção ou aparente diferença -, o turismo sustentável tem promovido a revitalização de várias zonas fustigadas por impérios coloniais. Depois de Portugal ter deixado uma marca incontornável neste território, é tempo de articular criticamente esta relação centenária. E nada melhor do que orientados pela sustentabilidade, respeito e consciência social: os valores que guiam a nossa viagem ao Sri Lanka.

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