10 dicas para viajar durante a gravidez

Patrícia Carvalho é lider de viagens da Landescape e escreveu-nos este artigo a partir da Indonésia, onde passou o último mês e meio de gravidez. Pelo meio, recebeu um grupo de viajantes, que guiou pelos segredos mais bem guardados de Bali.

Viajar durante a gravidez pode ser bem mais simples do que o que julgas. Apesar de esta fase ser marcada por alguma instabilidade e mudança para a mulher, a verdade é que é possível continuar a viajar, desde que se tenha alguns cuidados extra. Neste momento estou grávida de quase 6 meses e escrevo-te desde os céus da Indonésia, onde passei o último mês e meio de gravidez. Daqui vou para a Malásia e, se tudo continuar a correr bem, ainda vou passar uma temporada na Tailândia, antes de regressar ao nosso jardim à beira-mar plantado. Para mim tem sido um privilégio enorme poder viver esta fase da minha vida enquanto continuo a fazer uma das coisas que mais prazer me dá: viajar. 

No entanto, sei que este é um tema sensível e que gera muitas dúvidas e questões. E por isso, resumi os cuidados que tenho tido durante a minha gravidez em viagem em 10 dicas que te podem ser úteis:

1. Avalia junto do teu médico se podes viajar

Não há duas gravidezes iguais e, portanto, poder viajar livremente não é algo acessível a todas as mulheres, infelizmente. Há gravidezes de risco e/ou complicações que poderão surgir tendo em conta o teu histórico familiar. Neste sentido, é muito importante averiguar, junto do teu médico de família e do teu obstetra, se reúnes as condições necessárias para desfrutar de uma viagem. A parte boa é que, se tiveres uma gravidez saudável, à partida não terás nenhum problema.

2. Escolhe a melhor época da gravidez para viajar

É também importante escolher a altura ideal para viajar durante a gravidez. E não há dúvidas de que, a melhor fase para viajar é o segundo trimestre da gestação. Por esta altura já atravessaste a fase inicial, conhecida pelos enjoos e sonolência, mas ainda não estás fisicamente limitada. Além disso, o segundo trimestre é conhecido por ser uma fase onde as grávidas sentem mais energia e boa disposição. No meu caso, optei por viajar entre o quarto e o sétimo mês de gestação e acho que foi a altura ideal. Na parte final tornou-se um pouco mais difícil por causa do tamanho da barriga, por isso diria que até aos 6 meses não terás grandes dificuldades.

3. Escolhe um destino com boas condições de saúde

Talvez fazer um safari no Zimbabwe ou escalar uma montanha nos Himalaias não sejam as melhores opções para o destino a escolher durante uma gravidez. Não só pela exigência física das experiências, mas também porque te vão colocar em situações onde estarás longe de um hospital. É importante escolher destinos e locais onde estejas suficientemente próxima de um hospital com serviço de urgências. Mas calma, não precisamos de exagerar e escolher apenas países europeus com selo de segurança comprovada. Entre o risco e a segurança há uma panóplia de países que poderás escolher. No meu caso, escolhi a Indonésia, Malásia e Tailândia. Todos eles são países com boas infraestruturas e consegui (quase sempre) garantir que estava a pelo menos duas horas do hospital mais próximo. Outros países que incluiria nesta lista, tendo em conta a minha experiência de viagem, seriam o Vietname, a Coreia do Sul, o Japão ou até a Turquia. Não conheço muito bem os países da América Central e do Sul, mas parecem-me ser também boas opções.

4. Estabelece uma rede de apoio entre o teu médico em Portugal e os médicos do destino para onde vais viajar

A minha viagem pela Ásia vai durar 3 meses e, por isso, houve algumas ecografias e exames que tive de fazer durante a viagem. E, para isso, foi preciso organizar esta logística enquanto ainda estava em Portugal. A primeira coisa que fiz foi perceber junto da minha obstetra que ecografias e exames precisaria de fazer durante esta fase da gravidez. Como ia viajar durante o segundo trimestre, precisaria de fazer a ecografia morfológica, o teste da glucose e as regulares análises ao sangue. Em seguida, pesquisei por hospitais e clínicas, no país de destino, onde fosse possível realizar estes exames. Enviei mensagens, troquei e-mails, expliquei a minha situação e deixei já algumas ecografias marcadas. Por descargo de consciência, decidi fazer duas ecografias morfológicas em semanas diferentes da gravidez, em clínicas diferentes (para assim ter duas opiniões). Posto isto, aquilo que te recomendo é que tentes primeiro perceber que exames/ ecografias vais precisar de fazer e, depois, que tentes encontrar clínicas onde possas efetivamente realizá-las. Isto pode parecer complicado, à primeira vista, mas acredita que é muito mais fácil do que possas imaginar. No fundo, estarás só a estabelecer contactos entre médicos e hospitais que te poderão vir a ser úteis não só para estes exames, como também para alguma emergência.

5. Prepara-te para os voos longos

Os voos de longa duração podem ser um problema para as grávidas, especialmente se tiveres tendência para sofrer de má circulação. A diferença de pressão e o facto de passarmos demasiado tempo na mesma posição não são as melhores condições para uma grávida. Mas há alguns cuidados que podemos ter, de modo a tornar a viagem um pouco mais confortável. Uma delas é usar meias de compressão. Vão ajudar-te a manter a circulação e evitar que fiques com as pernas e os tornozelos inchados. Outra coisa que deves fazer é levantar-te várias vezes e fazer algumas caminhadas durante o voo. Vão ajudar-te a ativar a circulação e a reduzir o desconforto. Caso a barriga já esteja a pesar, podes levar também uma cinta de grávida para ter mais suporte na zona lombar (e podes usá-la também durante a viagem). E, por fim, pode fazer sentido levar uma injeção de enoxaparina no dia anterior ao voo. A enoxaparina é um anticoagulante injetável que previne a formação de trombos nos vasos sanguíneos. No meu caso, como fiz 5 voos seguidos, a minha obstetra aconselhou-me a levar uma injeção. Por isso, conversa com o teu médico sobre esta possibilidade, para que possam avaliar se será ou não necessário.

6. Redobra os cuidados durante a alimentação

Ter uma intoxicação alimentar é sempre mau, mas é ainda pior se tiveres grávida e a viajar. Por isso, tenta evitar aventuras gastronómicas durante esta fase. Tenta avaliar se o restaurante onde vais comer é limpo e se os alimentos são frescos. Quando tiveres dúvidas, opta por uma refeição vegetariana, é sempre mais seguro. De resto, não há grandes diferenças entre os ajustes que tens de fazer em Portugal ou em qualquer outro lado do Mundo – isto é, evitar alimentos crus e/ mal cozinhados como saladas, sushi, enchidos e por aí fora. Se, tal como eu, vieres para a Ásia, cuidado com os sumos de fruta natural – opta sempre por frutas que sejam consumidas sem casca, para descartar o risco de toxoplasmose.

7. Bebe muitos líquidos

Esta regra é sempre válida, mas durante a gravidez é ainda mais. É muito importante manteres-te hidratada, por isso bebe muita água ao longo da viagem. Sei que pode ser chato, especialmente porque nem sempre terás uma casa de banho perto de ti, e nesta altura urinamos com mais frequência. Mas, ainda assim, faz um esforço e garante que bebes pelo menos 1,5 litros de água por dia.

8. Em zonas com predominância de vírus zika tem especial cuidado com os mosquitos

E eis que chegamos ao pior inimigo de qualquer grávida, pelo menos daquelas que querem viajar durante a gravidez – os mosquitos. Na verdade, o problema não está no mosquito em si, mas sim no vírus zika que este poderá transportar. O zika é um vírus que afeta essencialmente mulheres grávidas e que pode provocar malformações no feto, ao nível do desenvolvimento cerebral. Neste sentido, é importante ter cuidados redobrados para afastar os mosquitos – usar e abusar do repelente é regra obrigatória. Não só nas horas mais propícias, mas durante todo o dia e sempre que estejas fora do hotel. Torna o repelente no teu melhor amigo e não o descures. Ao fim do dia e durante a noite opta por usar roupas largas que cubram a maior parte do corpo. Esta pode ser uma barreira física excelente para evitar picadas. No entanto, não deixes que isto te impeça de aproveitar a viagem, nem sequer de viajar. Apesar de este risco existir, a probabilidade de o teu filho vir a sofrer com o vírus zika é relativamente baixa (a menos, claro, que estejas a viajar para um local onde está a haver um surto). Se fores picada por um mosquito transportador de zika, terás uma probabilidade de 13% de passar o vírus para o teu bebé através de transmissão vertical (ou seja, há 87% de probabilidade de não passar). E mesmo que o vírus chegue até ao teu bebé, a probabilidade de este sofrer uma malformação é de apenas 5% (ou seja, há 95% de probabilidade de nada acontecer). Além disso, o zika é muito mais problemático durante o primeiro trimestre da gravidez, que é quando as estruturas cerebrais se estão a formar. Portanto, na prática, o risco vai diminuindo à medida que a gravidez progride. Outras doenças transportadas por mosquitos, como o dengue e a malária, não são particularmente graves para o bebé. No entanto, são sempre doenças e, por isso, vale sempre a pena evitá-las. 

9. Respeita os teus novos limites

Se por um lado é verdade que “gravidez não é doença”, por outro é também verdade que “nem sempre é um estado de graça”. Quero com isto dizer que, apesar de tudo, a nossa condição física e emocional não é a mesma durante esta fase da vida. A nossa capacidade física diminui, as emoções estão mais à flor da pele e sentimo-nos cansadas com mais facilidade. É importante ter isto em atenção e perceber que, se antes conseguíamos subir até um miradouro para ver um pôr do sol, se calhar agora não vai ser possível fazê-lo. Os nossos limites mudaram e é preciso conhecê-los e ajustar a viagem a este novo ritmo. É inevitável que assim seja. O teu corpo está a gerar uma vida dentro dele, portanto a sua prioridade é a saúde

10. E, por fim, não stresses sem necessidade

A maternidade é uma fase muito cruel para a mulher, onde o medo e o receio facilmente se tornam nos nossos melhores amigos. A dúvida e a incerteza fazem parte do nosso dia-a-dia e facilmente stressamos por antecipação. E se já o fazemos em Portugal, no conforto do nosso lar, a probabilidade de o fazermos em viagem, num ambiente novo e repleto de estímulos, é muito maior. Por isso, tenta gerir esta ansiedade da melhor maneira. Quando sentires medo e receio, pergunta-te primeiro se estás de facto numa situação de perigo ou se, ao invés, estás a stressar por antecipação, a antever cenários que não são sequer reais. É muito provável que seja a segunda opção. 

De resto, segue o teu instinto e aproveita esta fase da melhor maneira que conseguires. Se a fizeres a viajar, tenho a certeza que será muito mais especial!

4 Comentários

  1. Mirian 31 Janeiro 2025 (06:00)

    Oi,
    Obrigada por compartilhar, vou viajar gravida mais ou menos com o mesmo período que o seu. Sabe me dizer se saiu muito caro os exames e se contratou o seguro viagem para gravida?
    Obrigada!!

    Responder a Mirian
    • Patrícia Carvalho 31 Janeiro 2025 (13:12)

      Olá Mirian 🙂 Não ficou muito caro…cada ecografia ronda os 50 euros. Não há nenhum seguro de viagem específico para grávida e por isso não tive descontos nem consegui reembolsos dos valores pagos. Aproveito para dizer-te que se contratares um seguro de viagem e ocorrer uma emergência podes activá-lo e ser encaminhada para um hospital recomendado pela seguradora. Um beijinho e boa viagem!

      Responder a Patrícia Carvalho
  2. Margarida 4 Fevereiro 2026 (01:04)

    Que partilha importante. Tenho viagem marcada para dia 7 fevereiro, estando na 5 semana, por causa do zika estamos com algum receio.

    Responder a Margarida

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