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Um Safari pelo Botsuana e o jogo de escondidas, uma crónica de viagem por Pedro Quirino

Rei da Selva no Botsuana

Tenho as mãos cheias de bolhas e feridas, que nem as de um pugilista. Mas aqui as batalhas são outras… Aprender a fazer fogo com paus, desbravar mato, trocar pneus e…lavar meias no tanque da roupa! As pernas e pés também não têm melhor aspecto. Picadas de mosquito de perder a conta e duas picadas de outros bichos que insistem em não sarar, são maleitas dum safari pelo Botsuana

Muito provavelmente de uma aranha ou de um outro insecto qualquer. Todos os dias aparecem novos, de todas as cores, tamanhos e bizarrices. Uns ainda dá para identificar pelos livros, outros não faço ideia de que planeta vêm. Igualmente todos os dias ouvimos os leões a rugir, umas vezes ao raiar do dia outras ao por do sol mas já se passaram duas semanas e continuamos sem vê-los. Eles sabem bem como e quando nos evitar. Todos os dias vemos novas pegadas em locais diferentes, até mesmo em redor do camp mas insistem em não se deixar ver.

 

O contacto com a vida selvagem no seu estado mais puro

Mashatu, um local imperdível num safari ao Botsuana, tornou-se um local familiar onde já sei de cor os caminhos, lugares, cheiros e paisagens. Zebras, gnus, impalas, dassies, kudus e até mesmo leopardos fazem parte da paisagem como que imutáveis tal como as árvores ou rochas que decoram este lugar. Mas os leões, esses continuam a jogar o seu jogo.

Uma certa manhã, ainda com o sol a romper, começou com ventos de mudança. Uma forte rajada sacudiu violentamente as árvores e levou o ar quente e húmido à sua frente, dando lugar a uma estranha calmaria gélida e silenciosa. E foi assim que chegou o Inverno. O silêncio só foi interrompido pela chegada da chuva que caiu em proporções bíblicas durante a manhã toda, levando ao cancelamento de todas as actividades, caminhadas ou drives.

Leopardo no safari

A chuva que antes apareceu de rompante sem aviso vai agora calmamente suavizando e dando lugar aos sons de outrora com a excepção de um barulho de fundo novo mas que me é familiar. Ouve-se água a correr e em torrente que parece não abrandar. É o rio! Já parou de chover há algum tempo mas este continua a subir. Deve ter caído o céu a montante, pois o que antes parecia um deserto de areia, parece agora um oceano em dia de temporal. São 3 da tarde e o rio começou a inundar o camp. Não há nada que se possa fazer. Não vale a pena lutar lutas que se sabem perdidas. Resta-nos apenas salvar o que nos interessa e pasmar. Felizmente nada se perdeu ou estragou, como se as inundações fizessem parte da rotina e estrutura do camp, como se de mais uma maré se tratasse. Escova-se a água para fora das tendas, sacodem-se as coberturas e tudo volta ao normal.

Nem tudo. Os elefantes já não voltam ao fim da tarde para beber em frente ao nosso acampamento. As impalas que antes se contavam às centenas, quedam-se pelos poucos machos solitários que não querem perder o seu território. As zebras também parecem ter descoberto novas paragens. Os leões, esses continuam a ganhar no eterno jogo das escondidas.

 

Da época das chuvas ao período de seca

Os dias passam e tudo parece voltar ao normal, com a água a escassear e os animais a terem de voltar aos velhos sítios para beber diariamente. Podem passar dias, semanas ou meses mas eles sabem onde voltar. Mashatu voltou ao normal mas já sem as temperaturas que nos habituou no início, onde as manhãs começam frias e as tardes soalheiras facilmente ultrapassam os 30º C.

Os últimos dias aqui nesta reserva trazem uma nostalgia que fala por todos nós, como que uma despedida antecipada e antevendo já uma imensa saudade deste tempo que aqui passámos e que foi vivido intensamente a cada minuto que passava, neste safari pelo Botsuana. Fazemos o nosso último drive até um sítio onde nunca estivemos antes. E parece que tudo ficou guardado para o último dia.

Leoa na savana

Este lugar no topo de um promontório escarpado que cai a pique sobre o rio Motloutse não é de fácil acesso mas vale cada passo inseguro para lá chegar. Daqui de cima, avista-se toda a extensão da reserva, cada um dos lugares onde estive e outros que despertam ainda maior curiosidade de visita. Animais de todos os tipos polvilham a paisagem e até uma enorme manada de elefantes se distingue à distância. Olho à minha volta e lentamente tento registar visualmente cada pormenor deste lugar, absorver cada forma, cada cor, como se estivesse a pintar um mapa na minha memória, na quase certeza de que aqui jamais voltarei, não por falta de vontade, mas fui aprendendo que é difícil voltar a todos os lugares onde fomos felizes. Se assim é mesmo para aqueles à distância de um simples voo quanto mais para este lugar bastante próximo do fim do mundo.

Não voltes aos lugares onde foste feliz” tem a sua razão de ser, pois os lugares somos nós que os criamos, fruto das experiências, sensações ou sentimentos que lá deixámos. É inútil voltar e esperar que tudo tenha ficado cristalizado e pronto a ser vivido outra vez. Prefiro que fique assim na minha imaginação como um lugar mágico. Mashatu também é magico e especialmente nostálgico na hora da despedida. Regressamos ao camp em silêncio, cada um entretido com os seus pensamentos e olhando horizontes diferentes na vergonha de mostrar cada qual os seus olhos aguados.

E é neste regresso de mais um safari pelo Botsuana, que somos bruscamente interrompidos desta nossa letargia por uma súbita travagem. Que nem estátuas da Antiguidade, dois leões deitados no meio da estrada impedem a passagem. Finalmente. Parece que eles sabiam!

Crónica de viagem escrita pelo líder especializado em safaris de natureza Pedro Quirino. Se gostaste deste artigo, recomendamos que leias também a crónica de viagem no Delta do Okavango!