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Uma aldeia no Uganda. À descoberta de Rubuguri

mercado de rua

Atravessei meia África para chegar até aqui. Poderia ser o Okavango, as Cataratas Vitória ou uma qualquer das Sete Maravilhas dignas de uma odisseia mas não, o destino era mesmo uma aldeia encurralada entre os vulcões de Virunga e a Floresta Impenetrável de Bwindi. É fácil perceber, aliás, como esta floresta ganhou o seu nome.

Pelo caminho, trocamos de hemisfério e trocamos de roupa. Os quase 3000 metros de altitude fazem esquecer que estou a escassos passos do Equador. Pelo caminho, cruzamo-nos com alguns jipes brancos das Nações Unidas escoltados por carros do exército. Cenário de filme. Um claro sinal que esta zona está longe de ser um local tranquilo ou um concorrido destino turístico. Pelo caminho, à nossa passagem, as pessoas pasmam, acenam, sorriem, gritam “Mzungu”, mostram tudo menos indiferença. Os carros são raros e sinto-me um ser exótico por estas partes. Chegamos finalmente a Rubuguri, uma terra de abundância, mas onde todos pouco têm. Não existe uma única mercearia pois cada um tem a sua parcela de terra de onde tira o que precisa e troca ou vende o que sobeja. Tudo o resto que a terra não dá é supérfluo.

Aqui em volta, o que antes fora floresta é agora uma colina de retalhos em tons de verde e castanho cultivados vertiginosamente desde o fundo do vale pantanoso até ao pico nublado do morro. Sem socalcos nem trilhos, trazer uma saca de batatas lá de cima é por demais uma tarefa laboriosa, apenas guiada por obstinação ou sobrevivência. Um lugar onde metade da população tem SIDA, aqui vista tranquilamente como uma simples condição adquirida num jogo de probabilística e onde o Ébola, por vezes, também gosta de tentar a sua sorte.

transporte entre aldeias

Estranha terra esta que, por este prisma, poderia servir de ilustração a um dos Cantos do Inferno de Dantes, mas na realidade é tudo menos isso: as pessoas aqui são singularmente felizes. Talvez por reduzirem absolutamente tudo a uma simplicidade desafiadora de divagações filosóficas. Até o próprio tempo tem aqui uma concepção diferente e simplista! As horas aqui começam ao nascer-do-sol, onde a noite é apenas noite e “mais logo” também é apenas isso, seja lá quando for. Invariavelmente, quando combinamos algo, perguntam: “Mzungu time or Uganda time?”  Por vezes inconsequente pois a maioria das pessoas não tem relógio e, como descobri ontem, os que têm, apenas usam por ostentação. Pontualidade é uma condição que vai perdendo importância dia após dia e, tal como tudo, assim se vai simplificando.

Que nem a aldeia de Asterix, esta aldeia de irredutíveis ugandeses onde existe o ferreiro, o carpinteiro, o carregador de telemóveis, o condutor de moto-taxi, a costureira, o lenhador freelancer, o músico…profissões muito bem definidas e sem possibilidade de concorrência, a contrastar com as 50 vendedoras de couves e batatas nos mercados de sexta feira.

Existem dois cafés na aldeia, um deles dizem-me que é “chique”. Eu não lhes vejo diferença, ambos vendem a mesma cerveja quente, ambos têm uma mesa de bilhar já sem pano, ambos vendem as mesmas alcagoitas, ambos têm exactamente as mesmas pinturas na parede, a diferença deve ser só mesmo nas casas de banho mas não me atrevo a desvendar. A contrastar com tudo isto, as edificações de algumas das missões de voluntariado aqui presentes. De Evangelistas, Baptistas, Metodistas, Pentecostais, Católicos e Protestantes, parece que cada ramo da Igreja decidiu aqui montar a sua sucursal. O negócio da evangelização por estas bandas vai de vento em poupa. Cada qual tem a sua igreja, escola primária, centro comunitário, terras agrícolas e residências de fazer inveja a muitos resorts. Crucifiquem-me, mas diria que faz lembrar  Desmond Tutu: ”When the missionaries came to Africa they had the Bible and we had the land. They said ‘Let us pray.’ We closed our eyes. When we opened them we had the Bible and they had the land.”

vegetação típica

É domingo, o grande dia, onde cada um veste o seu único fato domingueiro para ir à missa e, sem grandes pressas, cada qual se encaminha para a sua igreja. Como que num concerto orquestrado, os cantos religiosos de cada Igreja degladiam-se pelo vale abaixo, num espectáculo memorável. Findas as celebrações dominicais e após o almoço, a população começa a juntar-se no campo da bola, aguardando o importante jogo Rubuguri Vs. (esqueci-me do nome mas é uma aldeia próxima, rival importante que deve uma desforra). Patrocinamos a equipa local com equipamentos e uma bola que nos lembrámos de comprar ontem no supermercado a caminho. Tal como na Escola Primária, ser aquele que traz a bola dá-me índices de popularidade de fazer inveja ao Presidente Marcelo. Dou comigo rodeado de crianças que me olham estarrecidamente, ignorando o jogo que começou.

Para satisfação da curiosidade de alguns e júbilo de todos, percebem que sou Português e como tal assumem automaticamente que só posso ser um craque de futebol, da mesma linhagem que o Figo ou Cristiano Ronaldo. Perguntam-me “You play? What position?” Respondo imediatamente “Seven!”. Arrependo-me logo a seguir quando percebo que mandam sair o jogador número 7 do campo. Meio contrariado, sai, tira a camisola e entrega-ma. Entre uma multidão rejubilante e um coro de aplausos não tenho outro remédio senão vesti-la e entrar em campo! Num campo ervado com uma inclinação que faz a bola voltar para trás sozinha, um charco enlameado com vida própria a meio, bosta de vaca por todo o lado, 11 Drogbas no lado adversário, penso pra mim mesmo: “se não partir um pé, já é bom…”.

equipa de futebol

Dos 22 jogadores em campo, 4 deles jogam descalços mas um deles com caneleiras e outro com uma fita na cabeça que lhe parece inspirar confiança suficiente para enfrentar pitons em riste. Reparo também que um outro tem calçados sapatos de ciclismo! Claramente confundiu os encaixes com pítons. Tudo isto é hilariante!

Joguei cerca de 30 minutos. Escorreguei tantas vezes quantas toquei na bola. Resultado final: empatámos. Mas eu ganhei! Hoje ganhei tanto…

Artigo escrito pelo líder de viagens Pedro Quirino.