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A Covid-19 matou as escapadinhas na cidade?

Cidade ásia

As escapadinhas na cidade, ou city breaks se preferimos usar a terminologia em inglês, são geralmente sinónimo de aglomerados de gente em espaços pequenos. Considerados até há bem pouco tempo atrás como uma das formas mais populares de viajar, são hoje alvo de interrogação perante a crise provocada pela Covid-19. Será que deixarão de existir no futuro?

As cidades mais visitadas do mundo – Banguecoque, Paris, Londres, Singapura, Nova Iorque – recebem literalmente milhões de visitantes todos os anos, e quando adicionamos esses milhões aos milhões que já lá moram a equação torna-se complexa, sobretudo num contexto de pandemia como este que agora vivemos. Então como conseguimos o tão recomendado distanciamento social em pequenos e movimentados centros turísticos como Veneza?

Se esta análise parece pertinente quando olhamos para o sector do turismo, o problema revela-se ainda mais grave nas cidades pequenas onde os centros turísticos são ainda mais reduzidos. Tomemos o exemplo acima mencionado de Veneza, em que apenas 55.000 pessoas vivem no seu centro histórico, conhecido pelas suas ruas estreias e canais de água por onde circulam as gôndolas. A cidade recebe anualmente perto de 26 milhões de visitantes, que se movimentam de forma frenética por entre as suas arteiras. Falamos de aproximadamente o equivalente a Nova Iorque receber 4 biliões de visitantes por ano – um pouco mais do que os 65 milhões que já recebe atualmente.

Por estes dias, que quase nos transportam para uma realidade de ficção científica, em que o distanciamento social e a vigilância são pré-requisitos internos em praticamente tudo o que fazemos, as escapadinhas na cidade parecem não ter sido projetadas para manter as pessoas afastadas.

veneza itália

Pensemos então no que realmente fazemos quando chegamos ao destino – depois de termos já passado por dois aeroportos movimentados. Onde vamos primeiro? Bebemos uma cerveja num bar agradável? Damos um passeio pelo centro histórico para nos começarmos a ambientar ao lugar? Visitamos uma qualquer exposição de museu com que andamos a sonhar há meses? Quem sabe, até não decidiste visitar esta cidade nesta altura específica do ano por estar a organizar um festival.

Este é o prazer e o objectivo de qualquer escapadinha numa cidade – a capacidade de mergulhar nos seus espaços lotados e abraçar inúmeras actividades num curto espaço de tempo. As cidades oferecem inúmeras oportunidades para descobertas e encontros aleatórios. Hoje em dia, porém, esses encontros só podem ocorrer com 2 metros de distância e com a cobertura facial adequada e recomendada.

Há muitos anos atrás, numa conferência de autores da Lonely Planet, fomos convidados a escrever sobre os nossos destinos favoritos. A maioria dos meus colegas expressou uma preferência pelo desconhecido, que vai de encontro ao espírito do viajante intrépido. Para mim, são as cidades.

Os meus lugares favoritos são uma mistura de cor e barulho num caos organizado. Palermo, Banguecoque, Ho Chi Minh, Nova Iorque e Los Angeles. Sim, até Los Angeles – aquela colcha de retalhos de cidades individuais unidas por faixas de auto-estradas. Eu gosto de me perder nas cidades. Peçam-me para fazer uma longa caminhada no campo e encontrarei várias razões para não o fazer. Ponham-me numa cidade e andarei 32 quilómetros antes de perceber que os meus pés estão doridos.

Destino backpacker

Um dos melhores lugares para ficar com os pés doridos é precisamente em Banguecoque, na Tailândia. Um anónimo sai da rua principal e desvia-se para uma rua lateral atravessada por becos movimentados e cheios de vida: encontra um pequeno mercado, um conjunto de oficinas e um pequeno restaurante ao ar livre sob um toldo de plástico. Sentas-te em pequenas cadeiras de plástico, comes pad thai acabado de fazer, enquanto ouves pop tailandesa soar de uma coluna pendurada no galho de uma árvore bodhi.

Não é algo notável, mas é este tipo de experiências aleatórias que compõem as minhas memórias de viagem favoritas. Mas isto foi antes desse misto de clientes se tornar num alvo potencial para o novo coronavírus.

A pandemia alterou profundamente a forma como experimentamos as cidades – tanto as nossas quanto as que visitamos. Meio cheio é o novo cheio em alojamentos e restaurantes, entradas programadas são agora a norma para todas as atracções e espectáculos, e os festivais ao vivo estão, em grande parte, encostados às boxes.

O que quer que faças e para onde quer que vás, haverá um nível constante de ansiedade: estou perto de mais? Por quanto tempo tenho que usar esta máscara? E enquanto nos adaptamos rapidamente a novos protocolos internos (permanecer em linha, colocar a máscara corretamente, usar o desinfetante para as mãos, respeitar o novo sistema de uma fila única, entre outros), vemos o lado divertido das viagens esfumar-se sem podermos fazer absolutamente nada para contrariar.

Estados Unidos

A disseminação global do vírus da Covid-19 criou um momento histórico, sem precedentes para os viajantes.

Após meses de confinamento, há também uma sensação de algum nervosismo em todo o mundo por eventualmente estar a reabrir cedo demais. Os agentes turísticos e aqueles que dependem do turismo internacional para ganhar dinheiro estão ansiosos por voltar a receber visitantes o mais depressa possível, mas estão cientes da necessidade de cautela – e isso é mais óbvio nas cidades, onde a chegada repentina de visitantes que procuram dançar e divertir-se, se deparam com várias reações que vão do ceticismo à hostilidade total. Novamente, não é muito divertido.

E não é o divertimento a principal razão de fazermos uma escapadinha pela cidade?

Não tenho dúvidas de que um dia vou retomar as minhas andanças urbanas, pronto para explorar a próxima cidade. Por enquanto, no entanto, vou continuar a explorar um parque nacional. Pelo menos nos espaços abertos, não preciso de usar máscara!

 

Artigo escrito por Fionn Davenport, escritor de viagens da Lonely Planet, e traduzido para português pela líder de viagens Carina Silva, que entre outros roteiros está responsável pela viagem a Cracóvia.